Reencontro
É tão estranho saber que a gente pode não ter o que a gente deseja, apenas pelo medo de tentar.
Capítulo 1 - A grande Mudança
Abri os
olhos, porém minha vista estava embaçada, um cheiro forte de comida me
despertou. Olhei para o lado, a aeromoça estava de pé com o carrinho de lanches.
- Então
querida, o que vai ser? – Perguntou ela.
- Estou
sem fome. – Respondi. Os comissários de bordo deveriam ser orientados a não
acordar os passageiros. Bom, talvez aquilo só incomodasse a mim.
- Querida,
ainda faltam duas horas para aterrissarmos, e a refeição não será servida
novamente.
Peguei uma
bandeja, sem ver o que era, e coloquei em meu colo. A comissária de bordo
sorriu e empurrou o carrinho para as cadeiras à frente.
Peguei os
talheres e comecei a comer o arroz com legumes e frango grelhado. Só então percebi que eu realmente estava com
muita fome.
Terminei
rapidamente a refeição, a comissária passou ao meu lado novamente e me olhou
com um ar triunfante. Pediu licença e recolheu a bandeja.
Olhei para
a janela do avião e me perdi em meus pensamentos. Pensei em minha casa que eu estava
deixando. Eu morava em uma pequena casa na cidade de Três Coroas no Rio Grande
do Sul, com minha mãe. Levávamos uma vida modesta, minha mãe era professora e
trabalhava para a prefeitura. Não
tínhamos parentes, mas isso nunca me incomodou. Nunca conheci ninguém de minha
família, e nem sabia se tinha uma. Nunca conheci uma avó, um primo, um tio,
ninguém. Meu pai era assunto proibido na
minha casa, então aos doze anos eu desisti de perguntar sobre ele. Eu era muito
feliz, em nosso estranho modo família, afinal eu tinha minha mãe e isso me
bastava.
A morte de
minha mãe em um acidente de carro em Curitiba, há três semanas, me pegou de
surpresa. Meu mundo desmoronou em menos de um minuto quando a polícia foi me
buscar na faculdade. Quando eu fui chamada à sala da coordenação e vi os
policiais parados ali pensei que minha mãe tivesse feito alguma coisa errada,
quando me deram a notícia eu desmaiei e acordei na enfermaria de um hospital.
Foi sem dúvida o pior momento da minha vida.
- Será que
vamos demorar muito a chegar? - Perguntou o rapaz que estava ao meu lado. Ele
me olhava com muito interesse, desde a hora em que eu sentei ao seu lado. Porém
eu logo que sentei no avião, fechei os olhos para evitar este tipo de conversa.
Certamente meus olhos abertos o estimularam a puxar papo agora.
- Não sei,
mais uma hora e meia talvez. – Respondi olhando para o relógio.
- Você é
do Rio? –Perguntou ele novamente. Talvez eu tivesse que ser mais ríspida para
interromper aquela conversa.
- Nasci no
Rio de Janeiro, mas moro no Rio Grande do Sul desde que era bebê. Então não
conheço nada, nem tenho lembrança alguma.
- Seu
sotaque é de carioca. – “Mas será possível? Será que alguma coisa no meu tom de
voz, esta insinuando que eu tenho interesse nessa conversa? ” Pensei.
- Minha
mãe era carioca, talvez seja por isso.
- É
talvez. – Respondeu ele virando para a janela. Talvez percebendo minha falta de
interesse.
Voltei a
olhar pela janela, lembrando agora do advogado que apareceu na minha casa, duas
semanas após a morte de minha mãe, dizendo que minha mãe havia deixado um
testamento. Não entendi muito bem, pois nós só tínhamos aquela casa e alguns
reais na conta. Porém quando ele leu o testamento eu quase desmaiei novamente.
Minha mãe tinha vários imóveis, incluindo uma cobertura na Barra da tijuca,
além de uma conta com muito dinheiro, mais do que se eu tivesse ganhado na
Mega-Sena sozinha. Minha mãe havia me deixado também uma carta.
Abri minha
bolsa e peguei o envelope dobrado. Tirei de dentro o papel amassado – durante
um acesso de raiva eu amassei a carta e atirei no lixo, depois peguei,
desamassei, dobrei, coloquei novamente no envelope e guardei na bolsa. Eu nunca
cheguei a ler a carta até o final. – Abri a carta e comecei a ler.
Minha filha
amada,
Não sei em que
altura da sua vida você lerá esta carta. Espero que já esteja bem velhinha, e que
esta carta não vá influenciar em nada a sua linda juventude. Porém, como sei
que talvez a gente não tenha tanta sorte e que eu posso deixar este mundo antes
de lhe contar detalhes importantes de nossa vida, achei então que era necessário
escrevê-la. Peço desculpas por tantas coisas que eu escondi de você minha
filha, mas eu nem sempre fui a pessoa que você conheceu. Tenho um passado do
qual não me orgulho, e que tive que fugir para que você tivesse uma vida digna
e se tornasse essa pessoa maravilhosa que você é. Não vou te contar nada sobre
meu passado, prefiro que você tenha a lembrança da pessoa que fui a partir do
momento em que eu me tornei sua mãe, pois sinto como se minha vida realmente
tivesse começado no momento em que eu olhei seu rostinho pela primeira vez. Ah
minha filha! Não há nada de que eu possa me orgulhar desde antes de você
nascer, não fui uma pessoa boa e por isso nada tenho a lhe revelar sobre meu
passado. Filha querida, sofro só de pensar que eu não posso mais estar ao seu
lado, e mais ainda de saber que não tem ninguém que possa ampará-la. Porém,
filha querida, não vou lhe dar informações sobre nossa família, eles certamente
iriam revelar coisas que eu sempre tentei esconder. Por isso peço que você que
não procure ninguém. Sei que não tenho esse direito minha filha, mas
infelizmente tenho que te fazer esse pedido, pois sei que as revelações que lhe
poderão ser feitas por estas pessoas que supostamente deveriam me amar, lhe
fariam sofre e me odiar. Por isso meu amor, eu lhe imploro, não busque
informações. Viva sua vida, sei que você tem um futuro lindo pela frente. Te
deixo todo esse dinheiro e esses imóveis para que você possa ter uma vida
confortável, não me orgulho da forma como os consegui, mas eles são seus por
direito e por isso eu não mexi em nem um centavo enquanto eu pude estar ao seu
lado e tive forças para trabalhar e lhe dar um futuro. Por favor, querida, não
procure seu pai, isso nada lhe traria de bom. Saiba querida que eu te amo
muito, e que eu daria qualquer coisa para enxugar essas lagrimas que brotam de
seus olhos agora. Mas se Deus quis que fosse assim ele sabe de todas as coisas,
saiba que de onde eu estiver eu estarei olhando por você.
Te amo muito.
Mamãe
- Você
está bem? – Perguntou o rapaz ao meu lado, puxando assunto novamente.
Enxuguei
os olhos, e guardei a carta na bolsa antes de responder.
- Sim,
estou.
- Posso
perguntar por que você está chorando?
- Não. –
Respondi e olhei novamente para a janela.
- Você é
sempre grossa assim com as pessoas que querem te ajudar? – Agora ele tinha
ultrapassado os limites.
- Só com
as pessoas que me incomodam. – Respondi com frieza.
- Eu estou
te incomodando? – Aquele cara era inacreditavelmente irritante.
- Muito. –
Respondi. E olhei para a janela novamente.
- Qual é o
seu nome? – Perguntou o chato. Eu olhei para ele incrédula, mas seu ar era de
quem estava se divertindo. Os olhos azuis me encarando e um leve sorriso nos
lábios revelando seus dentes muito brancos. Os cabelos muito loiros que
pareciam raios de sol, o rosto perfeito. Ele era tão lindo que aquilo me deixou
com mais raiva ainda.
- Não vejo
por que isso iria lhe interessar.
- Só
curiosidade, você não pode falar?
- Posso,
mas não vou.
- Está
fugindo da polícia, por que ser for isso pode ficar tranquila que eu não vou te
entregar. – Respondeu ele com sarcasmo.
- Não, só
não quero manter esta conversa.
- Aí, essa
doeu. Sou tão chato assim? – Perguntou ele fazendo beicinho, o que o deixava ainda
mais lindo, se é que isso era possível.
- Você não
imagina o quanto. – Respondi tentando parecer ameaçadora.
- Aposto
que eu posso adivinhar. – Falou o pentelho voltando a sorrir. Como eu não
respondi ele continuou. – Aposto que é Afrodite.
- Por quê?
– Perguntei fazendo uma careta.
- Bom,
Afrodite é a Deusa da beleza e do amor. E você é tão linda, e já me deixou
apaixonado mesmo com toda a sua grosseria, que eu imaginei que só poderia ser
esse seu nome.
Virei para
o corredor tentando me esconder do seu olhar. Não acreditava que aquele homem
tão lindo estava me paquerando. E o pior, não acreditava que uma cantada tão
ruim e tão forçada, tivesse me feito corar.
- Vou ao
banheiro. – Falei sem olhar para ele e me levantei.



