Como prometido, meia-noite em ponto, mais um capítulo do nosso Livro Série. Divirtam-se!
Capítulo 3 - Novo Mundo
Sacudi a
cabeça para me livrar dos pensamentos, levantei, contornei a piscina, peguei a
toalha, mas eu já estava seca. Peguei minhas malas e entrei na casa
novamente. A sala era incrível, cada
peça da mobilha parecia estar em prefeita harmonia. O sofá de um branco
impecável, que chegava a doer a vista, olhei ao redor, atordoada. Só então
percebi que a casa estava impecavelmente limpa, até a piscina, a não ser que
alguém estivesse indo cuidar, deveria ser um enorme foco de mosquito da dengue.
Então, ou alguém morava naquela casa, ou alguém ia lá sempre limpar a casa e
cuidar da piscina, das plantas, de tudo.
Pensei no porteiro, ele apenas perguntou quem eu era, e se deu por
satisfeito quando eu disse que era a nova moradora da cobertura e disse meu
nome, se alguém morasse ali ele teria estranhado. Deixei minha bagagem na sala
e fui procurar vestígios de que alguém morava naquela casa. Entrei em cada um
dos quatro quartos, todos muito bem arrumados, com as camas feitas e sem
nenhuma poeira. Porém nos closets só havia roupas de cama. Nos banheiros
também, só havia toalhas e sabonetes no lavabo. Nenhum shampoo, condicionador,
creme dental ou escovas de dente. Nada naquela casa indicava que alguém morava
ali, mas certamente alguém ia lá para arrumar tudo periodicamente, talvez tenha
estado lá no dia anterior. Fui até a cozinha, havia frutas frescas na fruteira,
a geladeira estava abastecida, assim como a dispensa. Daria para uma família
grande passar um mês ali sem precisar ir ao mercado. No freezer tinha vários
tipos de carne e louça nos armários. Eu realmente estava intrigada.
Peguei
minhas malas na sala e levei para o quarto que mais me agradou, a decoração era
toda em branco e lilás e a janela dava para a piscina. Sentei na cama, abri
minha mala e comecei a separar minhas roupas em cima da cama para depois
arrumá-las no closet, que era tão grande que elas se perderiam lá dentro. Assim
que eu descobrisse onde ficava o shopping iria comprar umas roupas. Em meia
hora eu já havia guardado toda a minha bagagem, tomado banho e vestido um short
jeans e uma blusa branca. Estava penteando meu cabelo, quando ouvi um barulho
de chaves na porta da frente, meu coração pulou, eu olhei para o relógio na
cabeceira da cama – eram nove e meia da manhã - e me pus de pé, sem coragem de
me mover. Ouvi a porta abrir e fechar. Ouvi o som de passos, pelo barulho de
salto me parecia ser uma mulher. Ouvi a porta abrir novamente e fechar sob o
som de passos mais pesados, talvez fossem de homem. Prendi a respiração, e
soltei quando eles começaram a conversar.
- O
porteiro me disse que ela chegou faz umas três horas e meia mais ou menos. – Falou
uma voz de mulher.
- Talvez
ela esteja no banho. Ela esteve na piscina. - Falou o homem.
- Eu
fiquei tão triste quando soube da morte da dona Tânia, embora só a tenha visto
quando ela me contratou. Era a mulher mais linda que eu já vi em toda a minha
vida, mais linda que qualquer artista de televisão. Pena você não a ter
conhecido Robson, daí você ia ver que eu não estou exagerando.
- Talvez a
filha pareça com a mãe. – Falou o tal Robson, esperançoso.
- É
talvez, eu não a vejo já faz vinte anos. A menina tinha acabado de nascer,
então ela deve estar com vinte anos agora, só um pouco mais nova do que a dona
Tânia quando a conheci.
-Rosa,
deixa eu ir fazer meu trabalho. Agora que a princesinha chegou, eu tenho que
deixar a piscina mais limpa do que nunca.
- Eu vou
ver se encontro a menina, para ver o que ela quer que eu faça para o almoço.
Depois você entra que eu te apresento a ela.
Os passos
da mulher ecoaram pelo corredor. Virei para o espelho o comecei a pentear meus
cabelos, ansiosa. Aquela mulher trabalhava ali a tanto tempo, talvez ela
soubesse de alguma coisa que pudesse me ajudar na minha busca. Pensar nisso fez
meu coração disparar.
- Com
licença, dona Melissa? – Uma senhora negra de sorriso simpático me olhava
hesitante da porta do quarto, eu sorri para ela de volta e ela entendeu isso
como um convite para continuar. – Bom dia dona Melissa, meu nome é Rosa, eu sou
a empregada que a sua mãe contratou para tomar conta da casa. Não sei se ela
lhe disse que eu estaria aqui, espero que não se incomode.
- Na
verdade dona Rosa, o que me incomoda é a senhora me chamar de dona Melissa. Tudo
bem para a senhora, me chamar de Mel? – Respondi sorrindo para a senhora
simpática. Ela sorriu de volta.
- Tudo bem
Mel, eu também me sinto mais à vontade assim. Você tem a mesma idade da minha
neta mais velha. Sua mãe costumava me chamar de tia Rosa quando ligava para cá. Se quiser, você também pode me chamar assim. – Eu não sei que carisma era esse
que a Rosa tinha, mas eu a conhecia fazia 2 minutos e já a adorava.
- Certo,
tia Rosa, eu não sei bem como essa casa funciona, quais são os seus horários,
nadinha. Então você vai ter que ajudar. Você acaba de ser promovida a
governanta, se quiser pode contratar quantos funcionários achar necessário para
os afazeres domésticos e você quem irá administrar tudo. Ah, vamos negociar
também o seu aumento.
Eu e a
Rosa ficamos ali conversando por um bom tempo, decidindo como organizaríamos a
casa. Por fim chegamos à conclusão de que ela continuaria dormindo no quarto de
empregada como já fazia há vinte anos – mas eu ainda iria tentar convencê-la a
se mudar para uma das outras três suítes da casa – ela contrataria outra
empregada, para os afazeres domésticos e coordenaria tudo para que ficasse
impecável. E contrataria também um motorista, para que ele a levasse para onde
ela quisesse, ela continuaria tendo os fins de semana de folga e poderia também
tirar folga sempre que quisesse durante a semana. E que o salário dela em
princípio seria dobrado, depois de eu conversar com o advogado que cuidava das
finanças, talvez eu aumentasse ainda mais. Eu percebi que eu passei a ver a Rosa
como minha família, uma vez que soube que ela ajudava a minha mãe há vinte
anos. Falei com a Rosa que a gente podia contratar também uma cozinheira, mas
ela fez questão de cuidar de minha comida pessoalmente, disse que a cozinha era
dela, claro que eu não me opus.
- Você é
tão parecida com sua mãe e ao mesmo tempo tão diferente Mel. – Disse a Rosa
enquanto acariciava meu cabelo dois dias depois da minha chegada, em uma tarde
que passamos inteira no meu quarto conversando.
- Como
assim tia Rosa? – Indaguei curiosa.
-
Fisicamente você parece muito com ela, só os olhos que são do seu pai. Aqui neste
quarto tinha uma foto dos dois juntos, mas um dia veio um homem aqui e levou.
Mas o seu jeito, seu olhar não parece com ela, ela era uma pessoa muito fina,
sabe, até no modo de falar. Mas tinha um olhar magoado, e até certa frieza.
Tenho certeza que a vida foi muito dura com ela. Você não, seu olhar é doce,
você é meiga, é uma menina. Sua mãe, apesar da pouca idade, ela tinha vinte e
três anos quando a conheci, parecia ter muito mais, no modo como se vestia, em
tudo. A gente via a juventude na aparência dela, mas não conseguia enxergar
essa juventude nela em si. Eu amava muito sua mãe Mel, ela me ligava todos os
dias, só para conversar às vezes. Me dizia o quanto você era maravilhosa,
estudiosa. Falando nisso, você tem que se matricular numa faculdade aqui, vai
continuar fazendo comunicação? – Agora eu entendia o que eu sentia, a Rosa era
realmente a família da minha mãe.
- Eu não
sabia que minha mãe tinha você tia Rosa, lamento não poder te conhecer antes.
- Sua mãe
tinha medo de vir ao Rio Mel. E tinha medo de você querer vir me ver. Agora eu
entendo.
- Por quê?
- Você é
igual a ela, linda como ela. Uma beleza ímpar. Qualquer pessoa que conheceu sua
mãe na juventude Mel, vai saber que se trata da filha dela, antes de te
conhecer.
- E isso é
tão grave assim?
- Não sei
Mel, sua mãe nunca me falou o que ela temia, mas eu sei que ela nem cogitava a
possibilidade de chegar perto desse prédio. Quando eu contratei o Robson e pedi
que ela viesse conhecê-lo, foi a única vez que sua mãe foi extremamente grossa
comigo. Depois me pediu desculpas, mas disse que neste prédio ela não colocava
os pés nunca mais.
- Tia
Rosa, eu vim para o Rio para descobrir o que tanto minha mãe escondia.
- Meu
amor, talvez seja melhor você não saber.
- Você
sabe de alguma coisa.
- Mel, eu
ouvi algumas coisas, sabe como é, estou aqui a muito tempo e as pessoas
comentam. Mas eu não vou me meter querida, porque eu não sei se o que eu ouvi é
a verdade.
Aquela
conversa ficou martelando na minha cabeça por uma semana. Depois eu acabei
deixando ela de lado, infelizmente eu sabia que a Rosa não me diria mais nada.
Um mês
após minha chegada no Rio, eu já tinha praticamente uma rotina. Pela manhã eu ia
à praia ou ao shopping, na parte da tarde eu conversava com a Tia Rosa em meu
quarto ou na piscina, ela nunca tirava o uniforme e isso as vezes me incomodava.
Falávamos sobre tantas coisas, às vezes eu tentava voltar ao assunto do segredo
de minha mãe, mas ela sempre se esquivava. Pelo menos a uma conclusão eu havia
chegado, se tinha um lugar para eu começar a procurar o passado da minha mãe,
era mesmo naquele prédio. Conversei com os porteiros, porém infelizmente não
puderam me ajudar, todos trabalhavam ali a pouco tempo. Eu realmente não sabia por onde começar a
procurar, exatamente. Um dia desesperada passei uma tarde inteira no saguão do
prédio na esperança de que alguém me reconhecesse, porém, quando os
funcionários do prédio começaram a me olhar como quem olha uma louca eu resolvi
ir para casa.
Acabei
ficando amiga de uma menina na praia, o nome dela é Carolina. Marcamos de sair
à noite para comer uma pizza, Tia Rosa ficou muito feliz:
- Ah Mel,
eu já estava ficando preocupara de você passar muito tempo comigo aqui nessa
casa, e não ter contato com pessoas da sua idade.
- A Carol
é legal Tia Rosa, mas você não fica devendo em nada para ela. Adoro estar com
as duas. Vou chamá-la para vir tomar um banho de piscina aqui em casa amanhã, o
que você acha?
- Ah minha
filha eu acho ótimo, vamos fazer um churrasco, o Robson faz um churrasco
maravilhoso. Fale com sua amiga para trazer uns amigos.
- Está bom
sua festeira, mas por enquanto seremos somente eu, você, a Carol e o Robson.
- Vou
falar com a Rita para caprichar na arrumação hoje, e já vou mandar o Jaime
tirar o carro para que eu ainda pegue o mercado aberto.
- Tia
Rosa, por favor, sem exageros. É só uma amiga que vai vir aqui tomar um banho
de piscina.
- Pode
deixar filha.
Ela saiu
apressada cantando. Eu sorri em frente ao espelho ao ver tanta alegria. Talvez
a Tia Rosa achasse que aquela casa era monótona demais, ou talvez achasse que
eu era monótona demais.
Terminei
de me arrumar e me olhei no espelho, eu optei por uma minissaia jeans com uma
blusa de alça preta com detalhes em renda. Uma sandália de saltinho e os
cabelos soltos. Virei de lado para observar meus longos fios loiros que caiam
até a cintura. Virei-me de frente novamente para contemplar a imagem completa,
Tia Rosa tinha razão eu me parecia com minha mãe, olhei para a foto que eu
tinha na cabeceira, estávamos idênticas, exceto pelos:
- Olhos!!!
Só agora
me lembrei do que Tia Rosa disse no dia em que cheguei, meus olhos, os olhos
verdes que eu sempre quis saber de quem tinha puxado, agora eu sabia que eram
de meu pai. Olhei mais de perto, ali estava a prova de que eu tinha um pai,
meus olhos eram iguais aos dele. Eu sorri, abri uma gaveta da penteadeira,
peguei um lápis de olho preto e pintei abaixo dos olhos para realça-los, como
se estivesse sublinhando uma palavra importante num texto.
Me afastei
do espelho novamente para ver o resultado e saí.
Peguei o
elevador e apertei o A, no andar 18 entrou um homem de meia idade, calvo e meio
gorducho. Ele me olhou de cima a baixo com um ar carrancudo, como se eu fosse a
pessoa mais indesejável do mundo, então ele me encarou, com um olhar de raiva
eu diria até de ódio. Olhou em meus olhos e então sua expressão mudou de raiva
para surpresa e depois voltou para a raiva. Quando chegamos ao térreo, mal o
elevador começou a abrir as portas, ele pulou para o saguão e desapareceu como
quem foge de uma doença contagiosa ou de um assassino. Aquilo me deixou paralisada, então uma mão me
puxou para fora do elevador.
- Mel, o
que houve, você está dormindo?
- Ah, oi
Carol. Não, eu estou bem é só que aconteceu uma coisa estranha. Depois te
conto.
- Ok,
agora vamos para a nossa pizza! Eu chamei alguns amigos, espero que você não se
incomode.
- Hã, que.
Ah não, claro que não.
Conhecer
pessoas, não era muito a minha praia. Nunca fui muito boa em estar em grupo.
Sempre me enrolava toda, e acabava fazendo coisas desajeitadas, que fazia com
que todos terminassem rindo de mim, e de minhas trapalhadas. Porém não havia
como sair dessa furada sem magoar a Carol, então me preparei para pagar micos,
mais alguns para acrescentar a lista imensa que adquiri durante minha vida.
Chegamos à
pizzaria. Estava cheia, não havia nem uma mesa vazia. A superlotação da
pizzaria não pareceu incomodar a Carol, então supus que seus convidados já
estivessem ali. Pensar nisso me deu um frio na barriga, que só aumentou quando
vi a Carol acenando para uma mesa com quatro pessoas, três meninas e um rapaz.
Nos
aproximamos da mesa e a Carol cumprimentou todos, beijando e abraçando-os. Me
senti um tanto deslocada, ao ver aquele grupo em que eu conhecia apenas uma pessoa
e nem tão bem assim. Um grupo que parecia se conhecer a tanto tempo, e eu não
fazia parte dele. Senti um aperto no peito, tristeza e culpa por minhas amigas
que deixei para trás em minha cidade, pessoas que eu abandonei e que nunca mais
procurei. Minha melhor amiga Mari, que eu conhecia desde sempre, e que eu
simplesmente fui embora sem me despedir. Eu tinha que ligar para ela, eu
precisava dela.
- Pessoal
essa é a Mel. – Anunciou a Carol, com um tom digno de quem apresenta o
presidente da república.
Todos me
cumprimentaram e se apresentaram. Vivian era uma menina muito bonita e moderna
de cabelos escuros com mechas coloridas, tinha pircings na sobrancelha, no
nariz, na orelha – talvez até em outros lugares– era um pouco "cheinha" e usava uma saia
preta bem justa e curta com uma blusa rosa clara de alça. Sonia era uma menina
muito magrinha e muito baixinha, usava óculos e parecia que ia quebrar a
qualquer momento, seus cabelos eram compridos e escuros e seus olhos cor de
mel. Se não fosse pelo seu rosto mais maduro eu poderia jurar que ela tinha no
máximo doze anos. Amanda era uma menina negra, muito extrovertida que me
abraçou como se fossemos velhas amigas, tinha um rosto perfeito e uma pele de
pêssego, seus olhos eram negros e seus cabelos cacheados, o corpo também era
perfeito. Fiquei admirada por sua beleza, não sei o que ela fazia, mas não me
admiraria se fosse modelo. Thiago era um rapaz alto com cabelo escuro,
arrepiado. Era magro, mas dava para ver seus músculos por baixo da camisa polo.
Sua pele era bronzeada, seu rosto era lindo e seu olhar era intenso.
- Bom,
agora que todo mundo já se conhece, vamos comer? – Perguntou a Carol, ela era a
mais comum entre seus amigos, magra, cabelos lisos cor de mel e olhos escuros.
- Claro. –
Respondi. E todos concordaram.
Fizemos o
pedido e ficamos aguardando, todos conversavam animadamente, porém a Carol
balançava a perna e olhava o relógio a cada segundo.
- O que
foi Carol? – Perguntei por fim.
-Nada. –
Respondeu ela olhando mais uma vez para o relógio.
Resolvi
não a incomodar mais. Passados alguns minutos, depois de mais umas mil olhadas
no relógio, ela começou a roer as unhas.
- Gente o
Dani não vem? – Perguntou por fim, como se estivesse se livrando de algo que a
sufocava.
- Ele
disse que vinha Carol, já deve estar chegando. Quer que ligue para ele? – Falou
a Vivian, num tom como se quisesse acalmá-la.
- Não Vi,
não precisa. – Respondeu a Carol com o alívio estampado no rosto.
- Esse
Dani é seu namorado? – Perguntei para ela.
- Não Mel,
é um carinha com quem eu estou ficando. Eu te falei dele, lembra? – Sussurrou
ela ficando vermelha. Percebi então, que eu não devia ter perguntado em voz
alta. Olhei para ela, desejando que ela pudesse ler meus pensamentos, e ouvir
meu pedido de desculpas.
Nossas
bebidas chegaram e todo mundo voltou a conversar, a Carol estava visivelmente
mais calma e começou a conversar também. Às vezes olhava para trás para ver a
porta, mas não estava mais olhando para o relógio a cada segundo. A pizza tinha
acabado de chegar quando a Amanda olhou fixamente para a Carol, eu entendi na
hora que o Dani havia chegado e a curiosidade, quase me fez olhar para trás, mas
eu já havia constrangido minha amiga o suficiente por uma noite.
- Oi
pessoal, opa, parece que eu cheguei na hora boa.... Melissa, Melissa é você? –
Ele me olhava fixamente e eu também não tinha voz para responder, ele não podia
estar ali. Era muita coincidência, numa cidade tão grande como esta.

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