segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Livro Série

Ebaaaaaaaa, é Terça!

Como prometido, meia-noite em ponto, mais um capítulo do nosso Livro Série. Divirtam-se!






Capítulo 3 - Novo Mundo


Sacudi a cabeça para me livrar dos pensamentos, levantei, contornei a piscina, peguei a toalha, mas eu já estava seca. Peguei minhas malas e entrei na casa novamente.  A sala era incrível, cada peça da mobilha parecia estar em prefeita harmonia. O sofá de um branco impecável, que chegava a doer a vista, olhei ao redor, atordoada. Só então percebi que a casa estava impecavelmente limpa, até a piscina, a não ser que alguém estivesse indo cuidar, deveria ser um enorme foco de mosquito da dengue. Então, ou alguém morava naquela casa, ou alguém ia lá sempre limpar a casa e cuidar da piscina, das plantas, de tudo.  Pensei no porteiro, ele apenas perguntou quem eu era, e se deu por satisfeito quando eu disse que era a nova moradora da cobertura e disse meu nome, se alguém morasse ali ele teria estranhado. Deixei minha bagagem na sala e fui procurar vestígios de que alguém morava naquela casa. Entrei em cada um dos quatro quartos, todos muito bem arrumados, com as camas feitas e sem nenhuma poeira. Porém nos closets só havia roupas de cama. Nos banheiros também, só havia toalhas e sabonetes no lavabo. Nenhum shampoo, condicionador, creme dental ou escovas de dente. Nada naquela casa indicava que alguém morava ali, mas certamente alguém ia lá para arrumar tudo periodicamente, talvez tenha estado lá no dia anterior. Fui até a cozinha, havia frutas frescas na fruteira, a geladeira estava abastecida, assim como a dispensa. Daria para uma família grande passar um mês ali sem precisar ir ao mercado. No freezer tinha vários tipos de carne e louça nos armários. Eu realmente estava intrigada.
Peguei minhas malas na sala e levei para o quarto que mais me agradou, a decoração era toda em branco e lilás e a janela dava para a piscina. Sentei na cama, abri minha mala e comecei a separar minhas roupas em cima da cama para depois arrumá-las no closet, que era tão grande que elas se perderiam lá dentro. Assim que eu descobrisse onde ficava o shopping iria comprar umas roupas. Em meia hora eu já havia guardado toda a minha bagagem, tomado banho e vestido um short jeans e uma blusa branca. Estava penteando meu cabelo, quando ouvi um barulho de chaves na porta da frente, meu coração pulou, eu olhei para o relógio na cabeceira da cama – eram nove e meia da manhã - e me pus de pé, sem coragem de me mover. Ouvi a porta abrir e fechar. Ouvi o som de passos, pelo barulho de salto me parecia ser uma mulher. Ouvi a porta abrir novamente e fechar sob o som de passos mais pesados, talvez fossem de homem. Prendi a respiração, e soltei quando eles começaram a conversar.
- O porteiro me disse que ela chegou faz umas três horas e meia mais ou menos. – Falou uma voz de mulher.
- Talvez ela esteja no banho. Ela esteve na piscina. - Falou o homem.
- Eu fiquei tão triste quando soube da morte da dona Tânia, embora só a tenha visto quando ela me contratou. Era a mulher mais linda que eu já vi em toda a minha vida, mais linda que qualquer artista de televisão. Pena você não a ter conhecido Robson, daí você ia ver que eu não estou exagerando.
- Talvez a filha pareça com a mãe. – Falou o tal Robson, esperançoso.
- É talvez, eu não a vejo já faz vinte anos. A menina tinha acabado de nascer, então ela deve estar com vinte anos agora, só um pouco mais nova do que a dona Tânia quando a conheci.
-Rosa, deixa eu ir fazer meu trabalho. Agora que a princesinha chegou, eu tenho que deixar a piscina mais limpa do que nunca.
- Eu vou ver se encontro a menina, para ver o que ela quer que eu faça para o almoço. Depois você entra que eu te apresento a ela.
Os passos da mulher ecoaram pelo corredor. Virei para o espelho o comecei a pentear meus cabelos, ansiosa. Aquela mulher trabalhava ali a tanto tempo, talvez ela soubesse de alguma coisa que pudesse me ajudar na minha busca. Pensar nisso fez meu coração disparar.
- Com licença, dona Melissa? – Uma senhora negra de sorriso simpático me olhava hesitante da porta do quarto, eu sorri para ela de volta e ela entendeu isso como um convite para continuar. – Bom dia dona Melissa, meu nome é Rosa, eu sou a empregada que a sua mãe contratou para tomar conta da casa. Não sei se ela lhe disse que eu estaria aqui, espero que não se incomode.
- Na verdade dona Rosa, o que me incomoda é a senhora me chamar de dona Melissa. Tudo bem para a senhora, me chamar de Mel? – Respondi sorrindo para a senhora simpática. Ela sorriu de volta.
- Tudo bem Mel, eu também me sinto mais à vontade assim. Você tem a mesma idade da minha neta mais velha. Sua mãe costumava me chamar de tia Rosa quando ligava para cá. Se quiser, você também pode me chamar assim. – Eu não sei que carisma era esse que a Rosa tinha, mas eu a conhecia fazia 2 minutos e já a adorava.
- Certo, tia Rosa, eu não sei bem como essa casa funciona, quais são os seus horários, nadinha. Então você vai ter que ajudar. Você acaba de ser promovida a governanta, se quiser pode contratar quantos funcionários achar necessário para os afazeres domésticos e você quem irá administrar tudo. Ah, vamos negociar também o seu aumento.
Eu e a Rosa ficamos ali conversando por um bom tempo, decidindo como organizaríamos a casa. Por fim chegamos à conclusão de que ela continuaria dormindo no quarto de empregada como já fazia há vinte anos – mas eu ainda iria tentar convencê-la a se mudar para uma das outras três suítes da casa – ela contrataria outra empregada, para os afazeres domésticos e coordenaria tudo para que ficasse impecável. E contrataria também um motorista, para que ele a levasse para onde ela quisesse, ela continuaria tendo os fins de semana de folga e poderia também tirar folga sempre que quisesse durante a semana. E que o salário dela em princípio seria dobrado, depois de eu conversar com o advogado que cuidava das finanças, talvez eu aumentasse ainda mais. Eu percebi que eu passei a ver a Rosa como minha família, uma vez que soube que ela ajudava a minha mãe há vinte anos. Falei com a Rosa que a gente podia contratar também uma cozinheira, mas ela fez questão de cuidar de minha comida pessoalmente, disse que a cozinha era dela, claro que eu não me opus.
- Você é tão parecida com sua mãe e ao mesmo tempo tão diferente Mel. – Disse a Rosa enquanto acariciava meu cabelo dois dias depois da minha chegada, em uma tarde que passamos inteira no meu quarto conversando.
- Como assim tia Rosa? – Indaguei curiosa.
- Fisicamente você parece muito com ela, só os olhos que são do seu pai. Aqui neste quarto tinha uma foto dos dois juntos, mas um dia veio um homem aqui e levou. Mas o seu jeito, seu olhar não parece com ela, ela era uma pessoa muito fina, sabe, até no modo de falar. Mas tinha um olhar magoado, e até certa frieza. Tenho certeza que a vida foi muito dura com ela. Você não, seu olhar é doce, você é meiga, é uma menina. Sua mãe, apesar da pouca idade, ela tinha vinte e três anos quando a conheci, parecia ter muito mais, no modo como se vestia, em tudo. A gente via a juventude na aparência dela, mas não conseguia enxergar essa juventude nela em si. Eu amava muito sua mãe Mel, ela me ligava todos os dias, só para conversar às vezes. Me dizia o quanto você era maravilhosa, estudiosa. Falando nisso, você tem que se matricular numa faculdade aqui, vai continuar fazendo comunicação? – Agora eu entendia o que eu sentia, a Rosa era realmente a família da minha mãe.
- Eu não sabia que minha mãe tinha você tia Rosa, lamento não poder te conhecer antes.
- Sua mãe tinha medo de vir ao Rio Mel. E tinha medo de você querer vir me ver. Agora eu entendo.
- Por quê?
- Você é igual a ela, linda como ela. Uma beleza ímpar. Qualquer pessoa que conheceu sua mãe na juventude Mel, vai saber que se trata da filha dela, antes de te conhecer.
- E isso é tão grave assim?
- Não sei Mel, sua mãe nunca me falou o que ela temia, mas eu sei que ela nem cogitava a possibilidade de chegar perto desse prédio. Quando eu contratei o Robson e pedi que ela viesse conhecê-lo, foi a única vez que sua mãe foi extremamente grossa comigo. Depois me pediu desculpas, mas disse que neste prédio ela não colocava os pés nunca mais.
- Tia Rosa, eu vim para o Rio para descobrir o que tanto minha mãe escondia.
- Meu amor, talvez seja melhor você não saber.
- Você sabe de alguma coisa.
- Mel, eu ouvi algumas coisas, sabe como é, estou aqui a muito tempo e as pessoas comentam. Mas eu não vou me meter querida, porque eu não sei se o que eu ouvi é a verdade.
Aquela conversa ficou martelando na minha cabeça por uma semana. Depois eu acabei deixando ela de lado, infelizmente eu sabia que a Rosa não me diria mais nada.
Um mês após minha chegada no Rio, eu já tinha praticamente uma rotina. Pela manhã eu ia à praia ou ao shopping, na parte da tarde eu conversava com a Tia Rosa em meu quarto ou na piscina, ela nunca tirava o uniforme e isso as vezes me incomodava. Falávamos sobre tantas coisas, às vezes eu tentava voltar ao assunto do segredo de minha mãe, mas ela sempre se esquivava. Pelo menos a uma conclusão eu havia chegado, se tinha um lugar para eu começar a procurar o passado da minha mãe, era mesmo naquele prédio. Conversei com os porteiros, porém infelizmente não puderam me ajudar, todos trabalhavam ali a pouco tempo.  Eu realmente não sabia por onde começar a procurar, exatamente. Um dia desesperada passei uma tarde inteira no saguão do prédio na esperança de que alguém me reconhecesse, porém, quando os funcionários do prédio começaram a me olhar como quem olha uma louca eu resolvi ir para casa.
Acabei ficando amiga de uma menina na praia, o nome dela é Carolina. Marcamos de sair à noite para comer uma pizza, Tia Rosa ficou muito feliz:
- Ah Mel, eu já estava ficando preocupara de você passar muito tempo comigo aqui nessa casa, e não ter contato com pessoas da sua idade.
- A Carol é legal Tia Rosa, mas você não fica devendo em nada para ela. Adoro estar com as duas. Vou chamá-la para vir tomar um banho de piscina aqui em casa amanhã, o que você acha?
- Ah minha filha eu acho ótimo, vamos fazer um churrasco, o Robson faz um churrasco maravilhoso. Fale com sua amiga para trazer uns amigos.
- Está bom sua festeira, mas por enquanto seremos somente eu, você, a Carol e o Robson.
- Vou falar com a Rita para caprichar na arrumação hoje, e já vou mandar o Jaime tirar o carro para que eu ainda pegue o mercado aberto.
- Tia Rosa, por favor, sem exageros. É só uma amiga que vai vir aqui tomar um banho de piscina.
- Pode deixar filha.
Ela saiu apressada cantando. Eu sorri em frente ao espelho ao ver tanta alegria. Talvez a Tia Rosa achasse que aquela casa era monótona demais, ou talvez achasse que eu era monótona demais.
Terminei de me arrumar e me olhei no espelho, eu optei por uma minissaia jeans com uma blusa de alça preta com detalhes em renda. Uma sandália de saltinho e os cabelos soltos. Virei de lado para observar meus longos fios loiros que caiam até a cintura. Virei-me de frente novamente para contemplar a imagem completa, Tia Rosa tinha razão eu me parecia com minha mãe, olhei para a foto que eu tinha na cabeceira, estávamos idênticas, exceto pelos:
- Olhos!!!
Só agora me lembrei do que Tia Rosa disse no dia em que cheguei, meus olhos, os olhos verdes que eu sempre quis saber de quem tinha puxado, agora eu sabia que eram de meu pai. Olhei mais de perto, ali estava a prova de que eu tinha um pai, meus olhos eram iguais aos dele. Eu sorri, abri uma gaveta da penteadeira, peguei um lápis de olho preto e pintei abaixo dos olhos para realça-los, como se estivesse sublinhando uma palavra importante num texto.
Me afastei do espelho novamente para ver o resultado e saí.
Peguei o elevador e apertei o A, no andar 18 entrou um homem de meia idade, calvo e meio gorducho. Ele me olhou de cima a baixo com um ar carrancudo, como se eu fosse a pessoa mais indesejável do mundo, então ele me encarou, com um olhar de raiva eu diria até de ódio. Olhou em meus olhos e então sua expressão mudou de raiva para surpresa e depois voltou para a raiva. Quando chegamos ao térreo, mal o elevador começou a abrir as portas, ele pulou para o saguão e desapareceu como quem foge de uma doença contagiosa ou de um assassino.  Aquilo me deixou paralisada, então uma mão me puxou para fora do elevador.
- Mel, o que houve, você está dormindo?
- Ah, oi Carol. Não, eu estou bem é só que aconteceu uma coisa estranha. Depois te conto.
- Ok, agora vamos para a nossa pizza! Eu chamei alguns amigos, espero que você não se incomode.
- Hã, que. Ah não, claro que não.
Conhecer pessoas, não era muito a minha praia. Nunca fui muito boa em estar em grupo. Sempre me enrolava toda, e acabava fazendo coisas desajeitadas, que fazia com que todos terminassem rindo de mim, e de minhas trapalhadas. Porém não havia como sair dessa furada sem magoar a Carol, então me preparei para pagar micos, mais alguns para acrescentar a lista imensa que adquiri durante minha vida.
Chegamos à pizzaria. Estava cheia, não havia nem uma mesa vazia. A superlotação da pizzaria não pareceu incomodar a Carol, então supus que seus convidados já estivessem ali. Pensar nisso me deu um frio na barriga, que só aumentou quando vi a Carol acenando para uma mesa com quatro pessoas, três meninas e um rapaz.
Nos aproximamos da mesa e a Carol cumprimentou todos, beijando e abraçando-os. Me senti um tanto deslocada, ao ver aquele grupo em que eu conhecia apenas uma pessoa e nem tão bem assim. Um grupo que parecia se conhecer a tanto tempo, e eu não fazia parte dele. Senti um aperto no peito, tristeza e culpa por minhas amigas que deixei para trás em minha cidade, pessoas que eu abandonei e que nunca mais procurei. Minha melhor amiga Mari, que eu conhecia desde sempre, e que eu simplesmente fui embora sem me despedir. Eu tinha que ligar para ela, eu precisava dela.
- Pessoal essa é a Mel. – Anunciou a Carol, com um tom digno de quem apresenta o presidente da república.
Todos me cumprimentaram e se apresentaram. Vivian era uma menina muito bonita e moderna de cabelos escuros com mechas coloridas, tinha pircings na sobrancelha, no nariz, na orelha – talvez até em outros lugares– era um pouco "cheinha" e usava uma saia preta bem justa e curta com uma blusa rosa clara de alça. Sonia era uma menina muito magrinha e muito baixinha, usava óculos e parecia que ia quebrar a qualquer momento, seus cabelos eram compridos e escuros e seus olhos cor de mel. Se não fosse pelo seu rosto mais maduro eu poderia jurar que ela tinha no máximo doze anos. Amanda era uma menina negra, muito extrovertida que me abraçou como se fossemos velhas amigas, tinha um rosto perfeito e uma pele de pêssego, seus olhos eram negros e seus cabelos cacheados, o corpo também era perfeito. Fiquei admirada por sua beleza, não sei o que ela fazia, mas não me admiraria se fosse modelo. Thiago era um rapaz alto com cabelo escuro, arrepiado. Era magro, mas dava para ver seus músculos por baixo da camisa polo. Sua pele era bronzeada, seu rosto era lindo e seu olhar era intenso.
- Bom, agora que todo mundo já se conhece, vamos comer? – Perguntou a Carol, ela era a mais comum entre seus amigos, magra, cabelos lisos cor de mel e olhos escuros.
- Claro. – Respondi. E todos concordaram.
Fizemos o pedido e ficamos aguardando, todos conversavam animadamente, porém a Carol balançava a perna e olhava o relógio a cada segundo.
- O que foi Carol? – Perguntei por fim.
-Nada. – Respondeu ela olhando mais uma vez para o relógio.
Resolvi não a incomodar mais. Passados alguns minutos, depois de mais umas mil olhadas no relógio, ela começou a roer as unhas.
- Gente o Dani não vem? – Perguntou por fim, como se estivesse se livrando de algo que a sufocava.
- Ele disse que vinha Carol, já deve estar chegando. Quer que ligue para ele? – Falou a Vivian, num tom como se quisesse acalmá-la.
- Não Vi, não precisa. – Respondeu a Carol com o alívio estampado no rosto.
- Esse Dani é seu namorado? – Perguntei para ela.
- Não Mel, é um carinha com quem eu estou ficando. Eu te falei dele, lembra? – Sussurrou ela ficando vermelha. Percebi então, que eu não devia ter perguntado em voz alta. Olhei para ela, desejando que ela pudesse ler meus pensamentos, e ouvir meu pedido de desculpas.
Nossas bebidas chegaram e todo mundo voltou a conversar, a Carol estava visivelmente mais calma e começou a conversar também. Às vezes olhava para trás para ver a porta, mas não estava mais olhando para o relógio a cada segundo. A pizza tinha acabado de chegar quando a Amanda olhou fixamente para a Carol, eu entendi na hora que o Dani havia chegado e a curiosidade, quase me fez olhar para trás, mas eu já havia constrangido minha amiga o suficiente por uma noite.

- Oi pessoal, opa, parece que eu cheguei na hora boa.... Melissa, Melissa é você? – Ele me olhava fixamente e eu também não tinha voz para responder, ele não podia estar ali. Era muita coincidência, numa cidade tão grande como esta.


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