Aqui você consegue ler todos os capítulos de uma só vez.
Reencontro
É tão estranho saber que a gente pode não ter o que a gente deseja, apenas pelo medo de tentar.
Capítulo 1 - A grande Mudança
Abri os olhos, porém minha vista estava embaçada, um cheiro forte de comida me despertou. Olhei para o lado, a aeromoça estava de pé com o carrinho de lanches.
- Então querida, o que vai ser? – Perguntou ela.
- Estou sem fome. – Respondi. Os comissários de bordo deveriam ser orientados a não acordar os passageiros. Bom, talvez aquilo só incomodasse a mim.
- Querida, ainda faltam duas horas para aterrissarmos, e a refeição não será servida novamente.
Peguei uma bandeja, sem ver o que era, e coloquei em meu colo. A comissária de bordo sorriu e empurrou o carrinho para as cadeiras à frente.
Peguei os talheres e comecei a comer o arroz com legumes e frango grelhado. Só então percebi que eu realmente estava com muita fome.
Terminei rapidamente a refeição, a comissária passou ao meu lado novamente e me olhou com um ar triunfante. Pediu licença e recolheu a bandeja.
Olhei para a janela do avião e me perdi em meus pensamentos. Pensei em minha casa que eu estava deixando. Eu morava em uma pequena casa na cidade de Três Coroas no Rio Grande do Sul, com minha mãe. Levávamos uma vida modesta, minha mãe era professora e trabalhava para a prefeitura. Não tínhamos parentes, mas isso nunca me incomodou. Nunca conheci ninguém de minha família, e nem sabia se tinha uma. Nunca conheci uma avó, um primo, um tio, ninguém. Meu pai era assunto proibido na minha casa, então aos doze anos eu desisti de perguntar sobre ele. Eu era muito feliz, em nosso estranho modo família, afinal eu tinha minha mãe e isso me bastava.
A morte de minha mãe em um acidente de carro em Curitiba, há três semanas, me pegou de surpresa. Meu mundo desmoronou em menos de um minuto quando a polícia foi me buscar na faculdade. Quando eu fui chamada à sala da coordenação e vi os policiais parados ali pensei que minha mãe tivesse feito alguma coisa errada, quando me deram a notícia eu desmaiei e acordei na enfermaria de um hospital. Foi sem dúvida o pior momento da minha vida.
- Será que vamos demorar muito a chegar? - Perguntou o rapaz que estava ao meu lado. Ele me olhava com muito interesse, desde a hora em que eu sentei ao seu lado. Porém eu logo que sentei no avião, fechei os olhos para evitar este tipo de conversa. Certamente meus olhos abertos o estimularam a puxar papo agora.
- Não sei, mais uma hora e meia talvez. – Respondi olhando para o relógio.
- Você é do Rio? –Perguntou ele novamente. Talvez eu tivesse que ser mais ríspida para interromper aquela conversa.
- Nasci no Rio de Janeiro, mas moro no Rio Grande do Sul desde que era bebê. Então não conheço nada, nem tenho lembrança alguma.
- Seu sotaque é de carioca. – “Mas será possível? Será que alguma coisa no meu tom de voz, esta insinuando que eu tenho interesse nessa conversa? ” Pensei.
- Minha mãe era carioca, talvez seja por isso.
- É talvez. – Respondeu ele virando para a janela. Talvez percebendo minha falta de interesse.
Voltei a olhar pela janela, lembrando agora do advogado que apareceu na minha casa, duas semanas após a morte de minha mãe, dizendo que minha mãe havia deixado um testamento. Não entendi muito bem, pois nós só tínhamos aquela casa e alguns reais na conta. Porém quando ele leu o testamento eu quase desmaiei novamente. Minha mãe tinha vários imóveis, incluindo uma cobertura na Barra da tijuca, além de uma conta com muito dinheiro, mais do que se eu tivesse ganhado na Mega-Sena sozinha. Minha mãe havia me deixado também uma carta.
Abri minha bolsa e peguei o envelope dobrado. Tirei de dentro o papel amassado – durante um acesso de raiva eu amassei a carta e atirei no lixo, depois peguei, desamassei, dobrei, coloquei novamente no envelope e guardei na bolsa. Eu nunca cheguei a ler a carta até o final. – Abri a carta e comecei a ler.
Minha filha amada,
Não sei em que altura da sua vida você lerá esta carta. Espero que já esteja bem velhinha, e que esta carta não vá influenciar em nada a sua linda juventude. Porém, como sei que talvez a gente não tenha tanta sorte e que eu posso deixar este mundo antes de lhe contar detalhes importantes de nossa vida, achei então que era necessário escrevê-la. Peço desculpas por tantas coisas que eu escondi de você minha filha, mas eu nem sempre fui a pessoa que você conheceu. Tenho um passado do qual não me orgulho, e que tive que fugir para que você tivesse uma vida digna e se tornasse essa pessoa maravilhosa que você é. Não vou te contar nada sobre meu passado, prefiro que você tenha a lembrança da pessoa que fui a partir do momento em que eu me tornei sua mãe, pois sinto como se minha vida realmente tivesse começado no momento em que eu olhei seu rostinho pela primeira vez. Ah minha filha! Não há nada de que eu possa me orgulhar desde antes de você nascer, não fui uma pessoa boa e por isso nada tenho a lhe revelar sobre meu passado. Filha querida, sofro só de pensar que eu não posso mais estar ao seu lado, e mais ainda de saber que não tem ninguém que possa ampará-la. Porém, filha querida, não vou lhe dar informações sobre nossa família, eles certamente iriam revelar coisas que eu sempre tentei esconder. Por isso peço que você que não procure ninguém. Sei que não tenho esse direito minha filha, mas infelizmente tenho que te fazer esse pedido, pois sei que as revelações que lhe poderão ser feitas por estas pessoas que supostamente deveriam me amar, lhe fariam sofre e me odiar. Por isso meu amor, eu lhe imploro, não busque informações. Viva sua vida, sei que você tem um futuro lindo pela frente. Te deixo todo esse dinheiro e esses imóveis para que você possa ter uma vida confortável, não me orgulho da forma como os consegui, mas eles são seus por direito e por isso eu não mexi em nem um centavo enquanto eu pude estar ao seu lado e tive forças para trabalhar e lhe dar um futuro. Por favor, querida, não procure seu pai, isso nada lhe traria de bom. Saiba querida que eu te amo muito, e que eu daria qualquer coisa para enxugar essas lagrimas que brotam de seus olhos agora. Mas se Deus quis que fosse assim ele sabe de todas as coisas, saiba que de onde eu estiver eu estarei olhando por você.
Te amo muito.
Mamãe
- Você está bem? – Perguntou o rapaz ao meu lado, puxando assunto novamente.
Enxuguei os olhos, e guardei a carta na bolsa antes de responder.
- Sim, estou.
- Posso perguntar por que você está chorando?
- Não. – Respondi e olhei novamente para a janela.
- Você é sempre grossa assim com as pessoas que querem te ajudar? – Agora ele tinha ultrapassado os limites.
- Só com as pessoas que me incomodam. – Respondi com frieza.
- Eu estou te incomodando? – Aquele cara era inacreditavelmente irritante.
- Muito. – Respondi. E olhei para a janela novamente.
- Qual é o seu nome? – Perguntou o chato. Eu olhei para ele incrédula, mas seu ar era de quem estava se divertindo. Os olhos azuis me encarando e um leve sorriso nos lábios revelando seus dentes muito brancos. Os cabelos muito loiros que pareciam raios de sol, o rosto perfeito. Ele era tão lindo que aquilo me deixou com mais raiva ainda.
- Não vejo por que isso iria lhe interessar.
- Só curiosidade, você não pode falar?
- Posso, mas não vou.
- Está fugindo da polícia, por que ser for isso pode ficar tranquila que eu não vou te entregar. – Respondeu ele com sarcasmo.
- Não, só não quero manter esta conversa.
- Aí, essa doeu. Sou tão chato assim? – Perguntou ele fazendo beicinho, o que o deixava ainda mais lindo, se é que isso era possível.
- Você não imagina o quanto. – Respondi tentando parecer ameaçadora.
- Aposto que eu posso adivinhar. – Falou o pentelho voltando a sorrir. Como eu não respondi ele continuou. – Aposto que é Afrodite.
- Por quê? – Perguntei fazendo uma careta.
- Bom, Afrodite é a Deusa da beleza e do amor. E você é tão linda, e já me deixou apaixonado mesmo com toda a sua grosseria, que eu imaginei que só poderia ser esse seu nome.
Virei para o corredor tentando me esconder do seu olhar. Não acreditava que aquele homem tão lindo estava me paquerando. E o pior, não acreditava que uma cantada tão ruim e tão forçada, tivesse me feito corar.
- Vou ao banheiro. – Falei sem olhar para ele e me levantei.
Capítulo 2 - Fugindo do destino
Caminhei pelo avião, entrei no banheiro, e tranquei a porta. Virei para o espelho, para tentar entender o que aquele rapaz estava vendo, que chamasse sua atenção. Minha aparência era deplorável. Eu nunca me achei muito bonita, mas meus olhos verdes, e meu cabelo louro acinzentado, pareciam chamar a atenção dos rapazes. Meu rosto também não era dos piores. O corpo era o que eu tinha de melhor, eu era magra, mas não do tipo esquelética. Tinha peito, tinha bunda e coxas grossas. Mas eu estava com um casaco enorme, que me deixava igual a um balão. Então certamente não foi isso que chamou a atenção do chato. Voltei a me concentrar na imagem do meu rosto, os olhos inchados de tanto chorar. Olheiras muito fortes, de tantas noites mal dormidas. Meu cabelo estava todo embolado, preso em um rabo de cavalo. Nossa, aquela não era uma visão muito agradável. Aquele imbecil só podia estar zombando com a minha cara. Respirei fundo, lavei o rosto e sequei com toalhas de papel. Soltei o cabelo, penteei com os dedos e prendi novamente em um rabo de cavalo frouxo. Mirei o reflexo no espelho novamente. Tinha melhorado, mas não muito. Amarrei a cara, destranquei a porta e voltei ao meu assento.
- Voltou Afrodite, eu já estava com saudade. – Falou o pentelho sorrindo, quando me sentei.
- Melissa.
- Como? – Perguntou ele confuso.
- Meu nome, é Melissa.
- Prazer, o meu é Daniel. – Eu devia imaginar que ele teria nome de anjo.
- Como se isso me interessasse. – Respondi.
- Então Mel, o que vai fazer no Rio de Janeiro? – “Nossa, como esse cara é insuportável. ” Pensei.
- Só por que eu disse meu nome você se dá ao direito de me tratar por apelido? – Eu disse fechando a cara.
- É que Melissa, é um nome muito grande. – Respondeu ele sorrindo.
- Você não parece ter preguiça de falar.
Ele riu alto colocando o cinto de segurança.
- Não ouviu Mel, coloque o cinto. Vamos aterrissar. – Olhei ao redor e todos os outros passageiros estavam colocando o cinto de segurança, coloquei o meu cinto tentando entender como eu não tinha ouvido o aviso de que iriamos aterrissar. De repente meu estomago deu um nó, eu havia chegado ao Rio de janeiro. Eu ia fazer tudo que minha mãe pediu que eu não fizesse. Ia procurar minha família, meu pai, minha origem. Mas acima de tudo, queria descobrir que passado era esse que ela escondia de mim, e que a envergonhava tanto. Como ela pôde pensar que eu iria odiá-la, eu jamais a odiaria. Eu a amava demais.
- Então Mel, o que veio fazer no Rio? – Definitivamente o Daniel sabia como ser inconveniente.
- Isso não é da sua conta Dani. – Respondi em tom sarcástico, mas ele não pareceu se incomodar.
- Eu só pensei que como eu moro aqui, eu poderia te ajudar. Você me disse que não conhece nada aqui, então. Acho que será mais fácil para você, se tiver alguém para te ajudar na cidade. Uma vez que você me disse que não tem lembranças da cidade, eu supus que você não tem parente aqui, senão teria voltado para visitar, pelo menos.
- Você pensa demais Daniel, e é muito intrometido. Agradeço sua oferta, mas não vejo necessidade, sei ler um mapa e tenho boca para perguntar onde ficam os lugares. Até porque não pretendo chegar perto de você a partir no momento em que a gente descer desse avião.
- Nossa! E eu que pensei que a gente estava se entendendo. – Respondeu ele, segurando o riso. Aquele cara estava me dando nos nervos. Era tão autoconfiante, que minha rispidez o divertia, em vez que deixá-lo irritado.
- Pensou errado. Eu estou te suportando, porque não posso sair daqui. Mas assim que a gente descer do avião, faça de conta que nunca me viu na vida. – Eu não sabia dizer por que ele me irritava tanto, afinal ele não era assim tão detestável. Mas tinha algum alerta em mim, que dizia para me manter afastada dele.
- Se eu fingir que nunca te vi na vida, vou me apaixonar por você novamente e te seguirei aonde você for. – Respondeu ele num tom divertido.
- Humpf. – Bufei e cruzei os braços olhando para a janela, onde a cidade começava a aparecer.
- Me dá seu telefone? – Perguntou ele inocentemente. Eu olhei para ele incrédula.
- Mesmo se eu quisesse, não posso te dar meu telefone, por que eu não tenho telefone.
- Me dá seu celular, pode ser com o DDD no seu estado, eu não ligo de fazer interurbano.
- Desculpe te decepcionar Daniel, mas eu não tenho telefone mesmo. Estou de mudança para o Rio e por isso não tenho telefone ainda. – Respondi com sinceridade.
- Bom isso é uma coisa que a gente vai ter que resolver com muita urgência, por que eu não vou conseguir ficar muito tempo sem te ver.
- Você é louco. – Eu realmente estava começando a pensar que aquele garoto não era muito certo da cabeça.
- Se eu te der meu telefone você vai me ligar?
- Duvido muito. – Respondi, tirando o cinto de segurança e me preparando para descer do avião.
- Vai pensar em mim? – Preguntou ele enquanto passávamos pelo saguão do aeroporto.
Saímos do aeroporto, e nos dirigimos para o ponto de táxi. Abri a porta do carro e me virei para respondê-lo.
- Receio que não. – Respondi, entrando no carro e batendo a porta. Ele sorriu e abaixou na janela.
- O que você está fazendo? – Perguntei quando ele colocou a cabeça para dentro do carro.
- Só vendo o rosto do motorista. – Respondeu ele. – Assim se você não me ligar, eu venho aqui e pergunto para ele onde ele te levou. Garota, agora que eu te encontrei eu não vou te perder. – Concluiu ele, como se estivesse me dizendo a coisa mais óbvia do mundo.
- Isso a gente vai ver. Tchau Daniel, valeu ter te conhecido. Embora não possa dizer que foi um prazer. – Eu disse fechando o vidro, enquanto o motorista arrancava com o carro. Ele se afastou uns passos para trás, e ficou me olhando com aquele sorriso maravilhoso nos lábios. Virei para o motorista e pedi para ele seguir em direção à Barra da tijuca, e pedi para que ele me avisasse assim que a gente chegasse na Barra.
- Moça, você não prefere me dar o endereço que eu te deixo lá? – Perguntou o motorista.
- Não moço, eu só quero que o senhor me leve até a Barra da tijuca, depois eu me viro por lá. Respondi impaciente.
- Ah, entendi moça, vai trocar de táxi, para eu não poder dizer ao rapaz aonde te levei né?
Assenti com a cabeça e olhei pela janela. A paisagem era exuberante, eu nunca tinha visto nada como aquilo. A paisagem urbana misturava com o mar, com lagoas, com áreas verdes. Tudo isso na mais perfeita harmonia, como um quadro pintado por deuses. Abri a janela, sentindo o vento bater em meu rosto, o sol forte em minha pele.
- Moça, chegamos na Barra. A senhora quer que eu encoste? – Olhei para o motorista meio atordoada, eu não tinha percebido o tempo passar.
- Sim pode encostar onde o senhor achar melhor, onde for mais fácil para pegar outro táxi. – O motorista assentiu sorrindo, e encostou o carro. Paguei a corrida e desci do carro. Quando ia fechando a porta, vi um pedaço de papel no chão do carro. Abaixei, peguei o papel e olhei o que estava escrito.
7898-4588
Daniel Borges
Eu sorri, guardando o papel na bolsa. Fechei a porta e fui até o porta-malas, onde o motorista já estava tirando minhas malas. Quando o motorista partiu eu fiz sinal para outro táxi.
Entrei no apartamento enorme, sem imaginar o que me esperava. Eu não tinha ideia de como seria uma cobertura. Uma vez que meu círculo de amizade em Três Coroas, era formado por pessoas de classe média, assim como eu. E eu nunca fui muito ligada nessas revistas, que mostrava como eram as casas e a vida das pessoas ricas e famosas. Eu não tinha noção do que iria encontrar ali.
Quando eu abri a porta fiquei chocada com o tamanho da sala, era enorme. Tinha uma porta no final, que dava para uma área externa com piscina, churrasqueira e banheiros que mais pareciam vestiários. O espaço externo era todo arborizado, tinha mesas, cadeiras, guarda-sóis e espreguiçadeiras. Na piscina, tinha uma espécie de cachoeira em uma das bordas. Toda a área era cercada por uma mureta de vidro, que dava de frente para a praia, permitindo que se visse o mar mesmo de dentro da piscina. Abaixei minhas malas no chão, abri aquela que eu sabia que tinha uma toalha. Peguei a toalha com cuidado e coloquei em uma das espreguiçadeiras. Tirei meu casaco – só então percebi que eu estava torrando, com aquele casaco debaixo do sol forte. Devia estar fazendo uns 30 graus ou mais. – tirei a blusa e a calça, e mergulhei na piscina apenas de calcinha e sutiã. Fiquei ali, nadando por um tempo, depois me deitei em uma das espreguiçadeiras de madeira escura que ficavam ao lado da “cachoeira”, dentro da piscina numa espécie de deque molhado. Essas espreguiçadeiras ficavam de frente para a praia, então eu fiquei ali, olhando o mar e perdida em meus pensamentos. Pensei em como era estranho estar ali, na minha casa, onde eu poderia fazer o que eu quisesse sem ter que dar satisfação para ninguém. Eu que sempre estudei tanto e trabalhei tanto para ter minhas coisas, e ajudar minha mãe a manter nossa humilde casa. Estava agora na minha cobertura, na Barra da tijuca – eu já havia pesquisado quando soube o que herdará, e sabia que era um bairro nobre – dentro na minha piscina e com uma conta bancária tão recheada que eu, meus filhos e meus netos poderíamos levar uma vida muito confortável sem que nenhum de nós jamais tivesse que trabalhar. E minha mãe escondeu isso de mim minha vida toda, esperou que ela morresse para me revelar que na verdade tanto sacrifício, tanto trabalho, foi tudo atoa, uma vez que ela tinha tantos imóveis e tanto dinheiro. Se nós éramos tão felizes só nós duas, mesmo com a nossa vidinha medíocre. Como seria nossa vida cercada de luxo, sem minha mãe não tendo que trabalhar tanto? Nós poderíamos ter tido tanto tempo a mais juntas, tempo este que me foi roubado pelas mentiras dela. E ainda tinha minha família, família essa que eu nunca soube que tinha, família que me foi negada. Eu sempre me senti meio que ninguém, por não ter família. Era a filhinha da mamãe, pois eu só tinha mãe. Não me arrependia da vida que eu tinha, eu amava cada momento da minha vida, porque eu tinha minha mãe para compartilha-la. Mas isso não me impedia de imaginar, como seria a vida sem as mentiras.
Isso me fez ver o quanto eu sentia, por não ter almoços em família aos domingos. O quanto eu sentia, por não ter uma avó para me deseducar, ou uma tia mais moderninha, para contar as coisas que eu não queria que minha mãe soubesse. E acima de tudo, o quanto eu sentia falta de um pai. Um pai para me contar histórias, para me cobrir e me dar um beijo de boa noite. Um pai para me levar nas festas, um pai para colocar medo nos meus namorados. Ou somente, um pai para ser meu pai.
Capítulo 3 - Novo Mundo
Sacudi a cabeça para me livrar dos pensamentos, levantei, contornei a piscina, peguei a toalha, mas eu já estava seca. Peguei minhas malas e entrei na casa novamente. A sala era incrível, cada peça da mobilha parecia estar em prefeita harmonia. O sofá de um branco impecável, que chegava a doer a vista, olhei ao redor, atordoada. Só então percebi que a casa estava impecavelmente limpa, até a piscina, a não ser que alguém estivesse indo cuidar, deveria ser um enorme foco de mosquito da dengue. Então, ou alguém morava naquela casa, ou alguém ia lá sempre limpar a casa e cuidar da piscina, das plantas, de tudo. Pensei no porteiro, ele apenas perguntou quem eu era, e se deu por satisfeito quando eu disse que era a nova moradora da cobertura e disse meu nome, se alguém morasse ali ele teria estranhado. Deixei minha bagagem na sala e fui procurar vestígios de que alguém morava naquela casa. Entrei em cada um dos quatro quartos, todos muito bem arrumados, com as camas feitas e sem nenhuma poeira. Porém nos closets só havia roupas de cama. Nos banheiros também, só havia toalhas e sabonetes no lavabo. Nenhum shampoo, condicionador, creme dental ou escovas de dente. Nada naquela casa indicava que alguém morava ali, mas certamente alguém ia lá para arrumar tudo periodicamente, talvez tenha estado lá no dia anterior. Fui até a cozinha, havia frutas frescas na fruteira, a geladeira estava abastecida, assim como a dispensa. Daria para uma família grande passar um mês ali sem precisar ir ao mercado. No freezer tinha vários tipos de carne e louça nos armários. Eu realmente estava intrigada.
Peguei minhas malas na sala e levei para o quarto que mais me agradou, a decoração era toda em branco e lilás e a janela dava para a piscina. Sentei na cama, abri minha mala e comecei a separar minhas roupas em cima da cama para depois arrumá-las no closet, que era tão grande que elas se perderiam lá dentro. Assim que eu descobrisse onde ficava o shopping iria comprar umas roupas. Em meia hora eu já havia guardado toda a minha bagagem, tomado banho e vestido um short jeans e uma blusa branca. Estava penteando meu cabelo, quando ouvi um barulho de chaves na porta da frente, meu coração pulou, eu olhei para o relógio na cabeceira da cama – eram nove e meia da manhã - e me pus de pé, sem coragem de me mover. Ouvi a porta abrir e fechar. Ouvi o som de passos, pelo barulho de salto me parecia ser uma mulher. Ouvi a porta abrir novamente e fechar sob o som de passos mais pesados, talvez fossem de homem. Prendi a respiração, e soltei quando eles começaram a conversar.
- O porteiro me disse que ela chegou faz umas três horas e meia mais ou menos. – Falou uma voz de mulher.
- Talvez ela esteja no banho. Ela esteve na piscina. - Falou o homem.
- Eu fiquei tão triste quando soube da morte da dona Tânia, embora só a tenha visto quando ela me contratou. Era a mulher mais linda que eu já vi em toda a minha vida, mais linda que qualquer artista de televisão. Pena você não a ter conhecido Robson, daí você ia ver que eu não estou exagerando.
- Talvez a filha pareça com a mãe. – Falou o tal Robson, esperançoso.
- É talvez, eu não a vejo já faz vinte anos. A menina tinha acabado de nascer, então ela deve estar com vinte anos agora, só um pouco mais nova do que a dona Tânia quando a conheci.
-Rosa, deixa eu ir fazer meu trabalho. Agora que a princesinha chegou, eu tenho que deixar a piscina mais limpa do que nunca.
- Eu vou ver se encontro a menina, para ver o que ela quer que eu faça para o almoço. Depois você entra que eu te apresento a ela.
Os passos da mulher ecoaram pelo corredor. Virei para o espelho o comecei a pentear meus cabelos, ansiosa. Aquela mulher trabalhava ali a tanto tempo, talvez ela soubesse de alguma coisa que pudesse me ajudar na minha busca. Pensar nisso fez meu coração disparar.
- Com licença, dona Melissa? – Uma senhora negra de sorriso simpático me olhava hesitante da porta do quarto, eu sorri para ela de volta e ela entendeu isso como um convite para continuar. – Bom dia dona Melissa, meu nome é Rosa, eu sou a empregada que a sua mãe contratou para tomar conta da casa. Não sei se ela lhe disse que eu estaria aqui, espero que não se incomode.
- Na verdade dona Rosa, o que me incomoda é a senhora me chamar de dona Melissa. Tudo bem para a senhora, me chamar de Mel? – Respondi sorrindo para a senhora simpática. Ela sorriu de volta.
- Tudo bem Mel, eu também me sinto mais à vontade assim. Você tem a mesma idade da minha neta mais velha. Sua mãe costumava me chamar de tia Rosa quando ligava para cá. Se quiser, você também pode me chamar assim. – Eu não sei que carisma era esse que a Rosa tinha, mas eu a conhecia fazia 2 minutos e já a adorava.
- Certo, tia Rosa, eu não sei bem como essa casa funciona, quais são os seus horários, nadinha. Então você vai ter que ajudar. Você acaba de ser promovida a governanta, se quiser pode contratar quantos funcionários achar necessário para os afazeres domésticos e você quem irá administrar tudo. Ah, vamos negociar também o seu aumento.
Eu e a Rosa ficamos ali conversando por um bom tempo, decidindo como organizaríamos a casa. Por fim chegamos à conclusão de que ela continuaria dormindo no quarto de empregada como já fazia há vinte anos – mas eu ainda iria tentar convencê-la a se mudar para uma das outras três suítes da casa – ela contrataria outra empregada, para os afazeres domésticos e coordenaria tudo para que ficasse impecável. E contrataria também um motorista, para que ele a levasse para onde ela quisesse, ela continuaria tendo os fins de semana de folga e poderia também tirar folga sempre que quisesse durante a semana. E que o salário dela em princípio seria dobrado, depois de eu conversar com o advogado que cuidava das finanças, talvez eu aumentasse ainda mais. Eu percebi que eu passei a ver a Rosa como minha família, uma vez que soube que ela ajudava a minha mãe há vinte anos. Falei com a Rosa que a gente podia contratar também uma cozinheira, mas ela fez questão de cuidar de minha comida pessoalmente, disse que a cozinha era dela, claro que eu não me opus.
- Você é tão parecida com sua mãe e ao mesmo tempo tão diferente Mel. – Disse a Rosa enquanto acariciava meu cabelo dois dias depois da minha chegada, em uma tarde que passamos inteira no meu quarto conversando.
- Como assim tia Rosa? – Indaguei curiosa.
- Fisicamente você parece muito com ela, só os olhos que são do seu pai. Aqui neste quarto tinha uma foto dos dois juntos, mas um dia veio um homem aqui e levou. Mas o seu jeito, seu olhar não parece com ela, ela era uma pessoa muito fina, sabe, até no modo de falar. Mas tinha um olhar magoado, e até certa frieza. Tenho certeza que a vida foi muito dura com ela. Você não, seu olhar é doce, você é meiga, é uma menina. Sua mãe, apesar da pouca idade, ela tinha vinte e três anos quando a conheci, parecia ter muito mais, no modo como se vestia, em tudo. A gente via a juventude na aparência dela, mas não conseguia enxergar essa juventude nela em si. Eu amava muito sua mãe Mel, ela me ligava todos os dias, só para conversar às vezes. Me dizia o quanto você era maravilhosa, estudiosa. Falando nisso, você tem que se matricular numa faculdade aqui, vai continuar fazendo comunicação? – Agora eu entendia o que eu sentia, a Rosa era realmente a família da minha mãe.
- Eu não sabia que minha mãe tinha você tia Rosa, lamento não poder te conhecer antes.
- Sua mãe tinha medo de vir ao Rio Mel. E tinha medo de você querer vir me ver. Agora eu entendo.
- Por quê?
- Você é igual a ela, linda como ela. Uma beleza ímpar. Qualquer pessoa que conheceu sua mãe na juventude Mel, vai saber que se trata da filha dela, antes de te conhecer.
- E isso é tão grave assim?
- Não sei Mel, sua mãe nunca me falou o que ela temia, mas eu sei que ela nem cogitava a possibilidade de chegar perto desse prédio. Quando eu contratei o Robson e pedi que ela viesse conhecê-lo, foi a única vez que sua mãe foi extremamente grossa comigo. Depois me pediu desculpas, mas disse que neste prédio ela não colocava os pés nunca mais.
- Tia Rosa, eu vim para o Rio para descobrir o que tanto minha mãe escondia.
- Meu amor, talvez seja melhor você não saber.
- Você sabe de alguma coisa.
- Mel, eu ouvi algumas coisas, sabe como é, estou aqui a muito tempo e as pessoas comentam. Mas eu não vou me meter querida, porque eu não sei se o que eu ouvi é a verdade.
Aquela conversa ficou martelando na minha cabeça por uma semana. Depois eu acabei deixando ela de lado, infelizmente eu sabia que a Rosa não me diria mais nada.
Um mês após minha chegada no Rio, eu já tinha praticamente uma rotina. Pela manhã eu ia à praia ou ao shopping, na parte da tarde eu conversava com a Tia Rosa em meu quarto ou na piscina, ela nunca tirava o uniforme e isso as vezes me incomodava. Falávamos sobre tantas coisas, às vezes eu tentava voltar ao assunto do segredo de minha mãe, mas ela sempre se esquivava. Pelo menos a uma conclusão eu havia chegado, se tinha um lugar para eu começar a procurar o passado da minha mãe, era mesmo naquele prédio. Conversei com os porteiros, porém infelizmente não puderam me ajudar, todos trabalhavam ali a pouco tempo. Eu realmente não sabia por onde começar a procurar, exatamente. Um dia desesperada passei uma tarde inteira no saguão do prédio na esperança de que alguém me reconhecesse, porém, quando os funcionários do prédio começaram a me olhar como quem olha uma louca eu resolvi ir para casa.
Acabei ficando amiga de uma menina na praia, o nome dela é Carolina. Marcamos de sair à noite para comer uma pizza, Tia Rosa ficou muito feliz:
- Ah Mel, eu já estava ficando preocupara de você passar muito tempo comigo aqui nessa casa, e não ter contato com pessoas da sua idade.
- A Carol é legal Tia Rosa, mas você não fica devendo em nada para ela. Adoro estar com as duas. Vou chamá-la para vir tomar um banho de piscina aqui em casa amanhã, o que você acha?
- Ah minha filha eu acho ótimo, vamos fazer um churrasco, o Robson faz um churrasco maravilhoso. Fale com sua amiga para trazer uns amigos.
- Está bom sua festeira, mas por enquanto seremos somente eu, você, a Carol e o Robson.
- Vou falar com a Rita para caprichar na arrumação hoje, e já vou mandar o Jaime tirar o carro para que eu ainda pegue o mercado aberto.
- Tia Rosa, por favor, sem exageros. É só uma amiga que vai vir aqui tomar um banho de piscina.
- Pode deixar filha.
Ela saiu apressada cantando. Eu sorri em frente ao espelho ao ver tanta alegria. Talvez a Tia Rosa achasse que aquela casa era monótona demais, ou talvez achasse que eu era monótona demais.
Terminei de me arrumar e me olhei no espelho, eu optei por uma minissaia jeans com uma blusa de alça preta com detalhes em renda. Uma sandália de saltinho e os cabelos soltos. Virei de lado para observar meus longos fios loiros que caiam até a cintura. Virei-me de frente novamente para contemplar a imagem completa, Tia Rosa tinha razão eu me parecia com minha mãe, olhei para a foto que eu tinha na cabeceira, estávamos idênticas, exceto pelos:
- Olhos!!!
Só agora me lembrei do que Tia Rosa disse no dia em que cheguei, meus olhos, os olhos verdes que eu sempre quis saber de quem tinha puxado, agora eu sabia que eram de meu pai. Olhei mais de perto, ali estava a prova de que eu tinha um pai, meus olhos eram iguais aos dele. Eu sorri, abri uma gaveta da penteadeira, peguei um lápis de olho preto e pintei abaixo dos olhos para realça-los, como se estivesse sublinhando uma palavra importante num texto.
Me afastei do espelho novamente para ver o resultado e saí.
Peguei o elevador e apertei o A, no andar 18 entrou um homem de meia idade, calvo e meio gorducho. Ele me olhou de cima a baixo com um ar carrancudo, como se eu fosse a pessoa mais indesejável do mundo, então ele me encarou, com um olhar de raiva eu diria até de ódio. Olhou em meus olhos e então sua expressão mudou de raiva para surpresa e depois voltou para a raiva. Quando chegamos ao térreo, mal o elevador começou a abrir as portas, ele pulou para o saguão e desapareceu como quem foge de uma doença contagiosa ou de um assassino. Aquilo me deixou paralisada, então uma mão me puxou para fora do elevador.
- Mel, o que houve, você está dormindo?
- Ah, oi Carol. Não, eu estou bem é só que aconteceu uma coisa estranha. Depois te conto.
- Ok, agora vamos para a nossa pizza! Eu chamei alguns amigos, espero que você não se incomode.
- Hã, que. Ah não, claro que não.
Conhecer pessoas, não era muito a minha praia. Nunca fui muito boa em estar em grupo. Sempre me enrolava toda, e acabava fazendo coisas desajeitadas, que fazia com que todos terminassem rindo de mim, e de minhas trapalhadas. Porém não havia como sair dessa furada sem magoar a Carol, então me preparei para pagar micos, mais alguns para acrescentar a lista imensa que adquiri durante minha vida.
Chegamos à pizzaria. Estava cheia, não havia nem uma mesa vazia. A superlotação da pizzaria não pareceu incomodar a Carol, então supus que seus convidados já estivessem ali. Pensar nisso me deu um frio na barriga, que só aumentou quando vi a Carol acenando para uma mesa com quatro pessoas, três meninas e um rapaz.
Nos aproximamos da mesa e a Carol cumprimentou todos, beijando e abraçando-os. Me senti um tanto deslocada, ao ver aquele grupo em que eu conhecia apenas uma pessoa e nem tão bem assim. Um grupo que parecia se conhecer a tanto tempo, e eu não fazia parte dele. Senti um aperto no peito, tristeza e culpa por minhas amigas que deixei para trás em minha cidade, pessoas que eu abandonei e que nunca mais procurei. Minha melhor amiga Mari, que eu conhecia desde sempre, e que eu simplesmente fui embora sem me despedir. Eu tinha que ligar para ela, eu precisava dela.
- Pessoal essa é a Mel. – Anunciou a Carol, com um tom digno de quem apresenta o presidente da república.
Todos me cumprimentaram e se apresentaram. Vivian era uma menina muito bonita e moderna de cabelos escuros com mechas coloridas, tinha pircings na sobrancelha, no nariz, na orelha – talvez até em outros lugares– era um pouco "cheinha" e usava uma saia preta bem justa e curta com uma blusa rosa clara de alça. Sonia era uma menina muito magrinha e muito baixinha, usava óculos e parecia que ia quebrar a qualquer momento, seus cabelos eram compridos e escuros e seus olhos cor de mel. Se não fosse pelo seu rosto mais maduro eu poderia jurar que ela tinha no máximo doze anos. Amanda era uma menina negra, muito extrovertida que me abraçou como se fossemos velhas amigas, tinha um rosto perfeito e uma pele de pêssego, seus olhos eram negros e seus cabelos cacheados, o corpo também era perfeito. Fiquei admirada por sua beleza, não sei o que ela fazia, mas não me admiraria se fosse modelo. Thiago era um rapaz alto com cabelo escuro, arrepiado. Era magro, mas dava para ver seus músculos por baixo da camisa polo. Sua pele era bronzeada, seu rosto era lindo e seu olhar era intenso.
- Bom, agora que todo mundo já se conhece, vamos comer? – Perguntou a Carol, ela era a mais comum entre seus amigos, magra, cabelos lisos cor de mel e olhos escuros.
- Claro. – Respondi. E todos concordaram.
Fizemos o pedido e ficamos aguardando, todos conversavam animadamente, porém a Carol balançava a perna e olhava o relógio a cada segundo.
- O que foi Carol? – Perguntei por fim.
-Nada. – Respondeu ela olhando mais uma vez para o relógio.
Resolvi não a incomodar mais. Passados alguns minutos, depois de mais umas mil olhadas no relógio, ela começou a roer as unhas.
- Gente o Dani não vem? – Perguntou por fim, como se estivesse se livrando de algo que a sufocava.
- Ele disse que vinha Carol, já deve estar chegando. Quer que ligue para ele? – Falou a Vivian, num tom como se quisesse acalmá-la.
- Não Vi, não precisa. – Respondeu a Carol com o alívio estampado no rosto.
- Esse Dani é seu namorado? – Perguntei para ela.
- Não Mel, é um carinha com quem eu estou ficando. Eu te falei dele, lembra? – Sussurrou ela ficando vermelha. Percebi então, que eu não devia ter perguntado em voz alta. Olhei para ela, desejando que ela pudesse ler meus pensamentos, e ouvir meu pedido de desculpas.
Nossas bebidas chegaram e todo mundo voltou a conversar, a Carol estava visivelmente mais calma e começou a conversar também. Às vezes olhava para trás para ver a porta, mas não estava mais olhando para o relógio a cada segundo. A pizza tinha acabado de chegar quando a Amanda olhou fixamente para a Carol, eu entendi na hora que o Dani havia chegado e a curiosidade, quase me fez olhar para trás, mas eu já havia constrangido minha amiga o suficiente por uma noite.
- Oi pessoal, opa, parece que eu cheguei na hora boa.... Melissa, Melissa é você? – Ele me olhava fixamente e eu também não tinha voz para responder, ele não podia estar ali. Era muita coincidência, numa cidade tão grande como esta.
Capítulo 4 - Você de Novo
- Vocês se conhecem? – Perguntou a Carol, com o ciúme claro em cada palavra que pronunciava.
- Garota você tem noção do quanto eu esperei você me ligar, de quantas vezes eu fui até aquele aeroporto falar com aquele taxista, implorar para ele me dizer aonde ele havia te deixado. Até que por fim acreditei na história, de que você mudou de táxi ao chegar aqui na Barra. Tem noção do quanto eu pensei em você esse tempo todo, e do quanto eu lamentei ter te perdido. – Eu estava em choque, aquilo não podia estar acontecendo. Todos me olhavam sem entender nada. E a Carol olhava para mim e para o Daniel com a boca aberta, ao que parecia ela era a única que estava entendendo, só que estava entendendo tudo errado. Fechei os olhos e procurei minha voz, eu tinha que falar e tinha que ser rápido, ou ia perder uma amiga.
- Olha aqui garoto, eu não lhe devo satisfação nenhuma. Eu disse que não ia te ligar e quando troquei de taxi foi justamente para não te ver nunca mais. –Eu falava olhando dele para a Carol, e da Carol para ele – Eu só sentei ao seu lado dentro de um avião, com que direito você vem me cobrar agora que eu não te liguei, você ligaria para um completo desconhecido? Eu vim de Três coroas, com todo mundo me dizendo que o Rio era uma cidade muito perigosa, claro que eu não ia ligar para você. E eu não entendi essa sua histeria, olha Carol sei que você me chamou para comer uma pizza, mas se esse maluco ficar gritando comigo aqui eu vou embora, e depois a gente se fala amiga. – Eu estava desesperada, a Carol parecia que ia vomitar. Ele olhou para mim e depois para a Carol, e depois para mim de novo.
- Tudo bem, mas você tem que me entender. Uma caipira como você, vindo para uma cidade como o Rio. Quando você me disse que não conhecia ninguém aqui, eu me senti na obrigação de te ajudar. E depois que você entrou naquele táxi eu precisava saber se você estava bem, se tinham te assaltado, te matado, eu estava me sentindo culpado por te largar sozinha assim, você me pareceu que não saberia nem encontrar um mercado sozinha. – Graças a Deus ele tinha entendido, eu estava tão feliz de ver a expressão de alívio no rosto da Carol que nem me incomodei com o fato de ele ter me chamado de caipira, e praticamente de retardada.
- Bom como você está vendo eu estou viva.
- É estou vendo. Bom pessoal desculpe pela lavação de roupa suja aqui, mas já que tudo está resolvido vamos comer nossa pizza.
O clima tinha voltado ao normal, a Carol estava radiante por que o Daniel puxou uma cadeira e sentou ao dela. O Thiago sentou-se ao meu lado e começou a puxar conversa, resolvi alimentar, para tirar de vez qualquer ideia que tivesse ficado na cabeça da Carol. Era melhor que ela achasse que eu estava interessada no seu amigo, do que no seu namorado.
- Ah Carol, a Rosa, minha governanta, teve a ideia de fazer um churrasco lá em casa amanhã, o que você acha? – Perguntei a certa altura, tentando levantar de uma vez por todas a bandeira da paz.
- Nossa que legal, claro que eu vou. Você está livre Dani?
- Carol, livre eu estou. Mas a sua amiga convidou você, não a mim.
- Estou convidando todo mundo Daniel, e gostaria muito que todos fossem. – Nossa, como aquele garoto podia me irritar tanto.
- Nossa Mel, claro que nó vamos. Olha tem um amigo nosso que não pôde vir, tudo bem se ele for amanhã? – Perguntou o Thiago.
- Claro, levem quem vocês quiserem.
- Legal. Bom pessoal vamos embora então? Afinal, amanhã temos uma festa. – Disse a Sonia bocejando.
Todos concordaram, pagamos a conta e nos levantamos. O Thiago colocou o braço em volta da minha cintura, eu achei melhor deixar. E assim todos saímos juntos da pizzaria. O Daniel olhou para trás onde estávamos o Thiago e eu abraçados e caminhou em nossa direção soltando fogo pelos olhos.
- Vem garota eu te levo para casa. – Falou ele, pegando meu braço e me arrastando.
- Não, o Thiago me leva. Você leva a Carol. – Eu disse soltando meu braço. Eu sabia que aquela atitude poderia dar uma impressão erradas das minhas intenções em relação ao Thiago, mas nesse momento não tinha importância.
Então cada um foi para um lado. A Vivian, a Amanda e a Sonia dividiam um apartamento, então foram juntas. O Daniel foi com a Carol. E eu segui para minha casa com o Thiago. Nós caminhamos em silencio e de mãos dadas até a entrada do meu prédio.
- Você quer que eu venha amanhã? – Perguntou o Thiago, colocando uma mecha dos meus cabelos atrás da minha orelha.
- Claro que sim. – Respondi olhando para o chão.
- Você é muito linda Mel, uma garota incrível. – Falou ele me puxando para perto dele, e passando o braço em minha cintura.
- Você também é muito especial. – Respondi sorrindo – Mas vamos com calma, pode ser?
- Sem problema, eu sou uma pessoa calma. – Ele soltou uma gargalhada e então se inclinou em minha direção, parou a boca a 5 centímetros da minha e então virou e me deu um beijo no rosto. Meus joelhos tremeram, percebi então que eu estava atraída por aquele garoto lindo e doce.
Eu sorri me virei e entrei no edifício. Quando a porta do elevador estava se fechando ela abriu novamente, e então lá estava ele na minha frente, dentro do elevador.
- Ah não Daniel, não acredito que você me seguiu.
- Sinto te decepcionar Melissa, mas dessa vez eu não tinha a menor intenção de te ver. Parece que eu me esforcei tanto para te achar, e você estava aqui o tempo todo não é, mora no mesmo prédio que eu. Hum cobertura né, parabéns.
- O que, você mora aqui?
- Sim, decimo oitavo andar. – Disse ele apertando o botão com o número 18. – Parece destino não é, eu e a Afrodite morando no mesmo prédio esse tempo todo. E eu tinha que te encontrar justamente no dia que você conhece o Thiago, e você tinha que ficar a fim dele e não de mim.
- Vem você com essa história de Afrodite novamente. – Falei rindo – E pelo menos, o Thiago não é namorado da única amiga que eu tenho aqui no Rio.
- A Carol não é minha namorada, eu fiquei com ela umas duas vezes é verdade, mas isso faz meses. Foi antes de eu viajar, antes de eu te conhecer. Mel eu conheço a Carol há muito tempo, e se eu tivesse que sentir alguma coisa por ela eu já teria sentido, não vejo ela dessa forma, ela é minha amiga, mas é só isso. A gente não manda no coração Mel, quando eu te vi naquele avião, mesmo com os olhos inchados, cheia de olheiras e de moletom, eu me apaixonei na mesma hora, não vi sua beleza nem nada, e hoje eu te vi tão linda como você está essa paixão só aumentou. Eu gosto de você Mel, gosto de verdade. E isso eu nunca vou sentir pela Carol.
- Eu não posso magoar a Carol, e espero que você também não a magoe.
- Isso eu não posso prometer, ela alimenta uma esperança que eu nunca dei. Eu quero você. – O elevador chegou ao andar dele, mas ele não desceu, a porta fechou novamente e o elevador continuou subindo.
- Não Daniel eu não posso, não posso fazer isso com a Carol, e tem o Thiago também.
- Eles vão sobreviver. – Disse ele segurando o meu rosto e me beijando.
Por um momento retribui o beijo, mas depois a imagem da Carol e do Thiago me veio à mente, e então eu me lembrei de toda a irritação que aquele garoto me causava, eu tinha que interromper aquele beijo. Mas como? Não encontrava minhas forças, ao mesmo tempo em que eu queria afastá-lo, eu queria beija-lo mais. Neste momento a porta do elevador abriu, havíamos chegado ao meu andar. Ele parou de me beijar e acariciou meu rosto.
- Boa noite Afrodite, até amanhã. Sonhe comigo.
Eu abri a boca para falar, mas a voz não veio. Daniel me beijou novamente, e então eu saí do elevador.
- Não esqueça que eu te amo! – Gritou ele enquanto a porta do elevador se fechava.
Entrei em casa meio tonta, fui até a cozinha, peguei um copo de água e fui para meu quarto. Sentei em minha cama ainda atordoada, aquele beijo havia mexido comigo, isso era inegável, mas eu não podia gostar do Daniel, ele me irritava, eu o detestava. E ainda tinha o Thiago, o que eu senti quando ele me abraçou, eu me senti atraída por ele. Minha cabeça estava tão confusa. Afinal o que eu sentia? Bom, independentemente de qualquer coisa, entre mim e o Daniel tinha a Carol acima de tudo, então minha escolha era o Thiago, a escolha sensata, a escolha que não magoaria ninguém, talvez só a mim mesma.
Levantei, tomei um banho e coloquei meu pijama. Olhei no espelho e vi a imagem de uma amiga traidora. Porque eu me sentia assim? Eu já tinha feito minha escolha, eu iria ficar com o Thiago, então não entendia o motivo de me sentir traindo minha amiga. Será que eu tinha me apaixonado pelo Daniel? Não, eu o detestava.
Acordei com o barulho do motor da piscina. Após tomar um banho e me arrumar, saí para tomar café.
- Bom dia filha, o Robson já está limpando a piscina para receber seus amigos.
- Bom dia tia Rosa.
- O que você tem querida?
- Ah tia Rosa, eu estou confusa.
- Coração confuso, filha?
- Acho que sim tia Rosa.
- Filha, lembre-se de que você tem que buscar sempre a sua felicidade. Do contrário serão três pessoas infelizes, você, a pessoa que você ama, e a pessoa que você tenta amar.
- E quando existe uma quarta pessoa?
- Filha, o que é melhor, duas pessoas felizes e duas tristes, ou quatro pessoas sofrendo?
- Entendi tia Rosa, obrigada.
Tia Rosa estava certa, mas ela não sabia os detalhes, ela não sabia que nem eu mesma sabia se eu amava ou odiava o Daniel. Ela não sabia que eu jamais arriscaria magoar uma amiga, por nada nesse mundo. Amores vem e vão, mas amizade é para sempre.
- Filha, que horas seus amigos vão chegar?
- Não sei tia, que horas são?
- 10:30.
-Vou ligar para a Carol, para ver que horas ela vem.
Liguei para o celular da Carol, meu coração estava acelerado. Era como se ao ouvir minha voz, ela imediatamente saberia que eu havia beijado o cara por quem ela era apaixonada.
- Alô.
- Oi Carol, bom dia. Só quero saber que horas você vem.
- Amiga estou entrando no seu prédio agora. O pessoal combinou de chegar por volta de meio-dia, mas eu vim antes porque quero te contar o que aconteceu ontem quando o Dani me levou em casa. – Nesse momento meu coração parou.
- Ah tá, então eu estou te esperando aqui. Beijos.
Eu estava enjoada, o que ela teria para me contar sobre a noite anterior? Será que eles tinham ficado? Mas o Daniel tinha dito que a última vez que ficou com ela foi antes de viajar, será que ele estava mentindo? “E daí Melissa, o que te interessa se ele mentiu? Você o odeia, isso só vai te ajudar a detestá-lo mais um pouquinho. ” Pensei.
A Carol chegou, tia Rosa abriu a porta para ela, e ela entrou com um sorriso enorme. Se apresentou para tia Rosa, deu um beijo no seu rosto, me pegou pelo braço e saiu me arrastando.
- Onde é o seu quarto, eu preciso falar com você senão vou explodir.
- É aquele ali, segunda porta a direita.
Ela me arrastou pelo quarto adentro, fechou a porta e se virou sorrindo.
- Ai amiga, obrigada por pedir para o Dani me levar pra casa ontem.
- Ah, por nada. E aí o que rolou?
Capítulo 5 - A grande confusão
- Na verdade foi meio estranho, ele me levou para casa, mas não falou muito. Eu falava o tempo todo, mas tinha a impressão de que ele não me ouvia, era como se ele não estivesse ali. E ele estava meio irritado. Então quando a gente chegou na porta da minha casa, ele simplesmente me deu tchau e virou para ir embora. Aí eu segurei o braço dele e dei um beijo nele. Ele não retribuiu o beijo sabe, mas me afastou delicadamente, acariciou o meu rosto disse que eu era uma garota muito especial, me deu um beijo na testa e foi embora.
- Tá, mas você está muito feliz, o que você acha de tudo isso.
- Ai amiga eu acho que ele não quer mais só ficar comigo, que está se sentindo culpado. Acho que ele me acha especial e que eu sou uma garota para namorar, acho que ele está confuso mas acho que ele gosta de mim.
- Sério?
- Mel, o Dani é o tipo de cara pegador. Ele não namora, ele só fica. Nunca gostou de garota nenhuma, ele curte o momento, e quando não quer mais ele simplesmente chuta ela. Ele não tem pena, sabe. O Thiago falou para mim que ele nunca se apaixonou, nunca amou nenhuma garota de verdade, mas que ele voltou de viagem dizendo que estava apaixonado. E o que aconteceu ontem para mim foi uma demonstração do conflito que está tendo dentro dele. Sabe, ele é um galinha, mas me acha uma garota especial e não quer me fazer sofrer. Mel, acho que ele gosta de mim.
- É, pode ser. Faz sentido.
- Ai amiga, eu estou tão feliz! – Disse ela me abraçando.
E fazia sentido mesmo, tudo que ela disse. Ela mais do que ninguém estava lá e viveu o momento. Quanto ao beijo que ele me deu, acabou de me dizer que ele era um pegador. Eu era nada a mais do que uma presa para ele, que deve ter ficado mais saborosa ainda pois era uma presa arisca. Mas ele já tinha me beijado, já satisfez sua curiosidade, sua vontade. Agora eu não era mais nada para ele. Pensar naquilo me deixou triste e com muita raiva, como eu pude ser tão idiota? Eu sentia nojo só de lembrar que aquele idiota tinha me beijado duas vezes. Mas eu já tinha decidido que quando ele chegasse, se realmente viesse, eu o trataria com a máxima indiferença.
Eu estava no quarto conversando com a Carol quando a tia Rosa bateu para avisar que a Vivian, a Sônia e a Amanda estavam subindo. Nós fomos espera-las na piscina. Logo depois Thiago chegou com o Gabriel, um garoto moreno com o cabelo raspado e um corpo malhado de academia.
- Oi Mel. – Disse o Thiago me envolvendo pela cintura, e me puxando para me dar um beijo no rosto e um abraço bem forte. – Pensei em você a noite toda. – Ele sussurrou no meu ouvido.
Senti meu rosto pegar fogo e me afastei sorrindo sem jeito. Nesse momento a campainha tocou, meu estômago deu um giro de 360 graus, com certeza era o Daniel.
Sei que eu já tinha decidido que não daria a menor atenção para ele, mas pensar que ele estava ali a poucos metros, me fazia ficar sem ar. “Meu Deus, que confusão eu fui me meter”. Pensei. Mas eu tinha que enfrentar tudo isso, e sair da forma mais digna possível. Se aquele Daniel achava que podia dar uma de gostosão para cima de mim, ele realmente não me conhecia.
Caminhei em direção a Vivian, para me afastar da Carol, caso o Daniel fosse indiscreto. Me posicionei de costas para a entrada da varanda, para não correr o risco de me trair e acabar olhando para ele quando entrasse.
- Podem começar a festa, chegou quem faltava! – Falou Daniel anunciando sua chegada.
Todos caíram na gargalhada. Ouvi quando a Carol deu um gritinho e quando olhei para ela, estava correndo para abraçá-lo. Neste momento ele olhou para mim e nossos olhos se encontraram, desviei o olhar e virei de costas. “ Isso não era para ter acontecido. ” Pensei.
- O Dani é demais, não é Mel. – Falou a Vivian, puxando assunto.
- Sinceramente Vi, eu acho ele meio arrogante. Sempre querendo atrair toda a atenção para si.
- Que isso, é porque você não o conhece. O Dani é a melhor pessoa que eu já conheci. Muito generoso, sempre disposto a ajudar o próximo.
- É, na verdade eu não tive a oportunidade de conhecê-lo direito. Por isso, devo ter ficado com a impressão errada.
- E nem vai ter essa oportunidade Mel. A Carol, realmente ficou com muito ciúme de você por causa da confusão de ontem. Ela não vai deixar você chegar perto do Dani nunca mais. – Falou a Vivian rindo. Ela realmente estava brincando com aquele comentário inocente, mas ele fez com que eu me sentisse culpada novamente.
- O que as mocinhas tanto conversam? – Eu simplesmente tremi quando ouvi a voz dele atrás de mim. Nesse momento o Daniel me abraçou por trás e me deu um beijo no cabelo. A Vivian me olhou com um ar de entendi tudo, e aquilo fez meu coração gelar. Me desvencilhei do seu abraço e parei ao lado da Vivian de frente para ele.
- Na verdade Daniel, estávamos falando se você. – Eu disse.
- Sério? – Perguntou ele com um sorriso que iluminava todo o rosto.
- Sim. – Continuei. – A Vivian estava me contando que a Carol ficou com muito ciúme de você comigo, por causa da sua ceninha de ontem. E você chegou bem na hora que eu ia falar para ela que esse ciúme é completamente infundado, porque você e eu não temos, nunca tivemos e nem nunca vamos ter nada um com o outro.
O sorriso dele murchou na hora, e ele me olhava com um olhar de dúvida. Parecia não encontrar as palavras para continuar nossa conversa.
- Ah, Dani. Mas pelo visto você já deixou isso bem claro para a Carol ontem. – Falou a Vivian, com um tom de cumplicidade. Indicando que já estava a par das novidades. Aquilo foi como um soco no estômago para mim.
- Eu o quê? – Perguntou o Daniel, bastante surpreso. – Vi, não importa o que eu faça. A Carol sempre entende tudo errado. Eu vou contar para você exatamente o que aconteceu ontem, e você vai ver que eu deixei mais do que claro para a Caro,l que entre ela e eu não vai rolar nada. Nunca mais.
Ele falava tudo isso com a Vivian, mas olhando nos meus olhos o tempo todo. Um olhar suplicante. Eu tinha que sair dali.
- Bom, eu vou ali falar com o Thiago. Continuem a conversa, e sintam-se em casa. – Eu disse por fim, indo em direção ao Thiago, que me recebeu com um sorriso imenso.
Eu fiquei o tempo todo ao lado do Thiago, ele era como meu porto seguro. Enquanto eu estava perto dele, o Daniel não se atrevia a chegar perto de mim. Ficava sempre me olhando de longe, com tristeza. Mas eu não iria cair naquele jogo, eu era mais forte do que aquilo.
Em alguns momentos, ele tentou forçar situações em que a gente ficasse a sós. Mas o ciúme da Carol era tanto que só me ajudava. Se eu tinha que ir na cozinha buscar bebidas, ele logo vinha oferecer ajuda. Então a Carol dizia que também iria ajudar, e por fim eu falava que era melhor os dois irem buscar as bebidas, enquanto eu recolhia o lixo. Essa estratégia estava funcionando muito bem, até aquele momento.
- Bom pessoal eu vou na dispensa buscar mais umas cervejas para pôr para gelar. – Disse eu, algumas horas mais tarde. Como essa turma bebia, eu não contava com isso.
- Eu vou te ajudar. – Falou o Daniel pela quarta ou quinta vez. Ele não desistia.
- Eu ajudo também. - Disse a Carol prontamente. Aquilo estava ficando engraçado.
A Rosa, estava conversando com o Robson perto da churrasqueira. Eu havia feito ela prometer que iria curtir a festa e deixaria os afazeres por minha conta.
- Vão vocês dois na cozinha então, que eu vou no mercado comprar mais umas cervejas porque acho que a Rosa não contou que vocês bebessem tanto. – Disse eu rindo.
- O mercado é longe Mel, você vai de carro? – Perguntou o Daniel por fim.
- Não o James já foi embora, a Rosa dispensou ele. Vou de táxi.
- Eu posso te levar no meu carro.
- Não Daniel, a Carol precisa de ajuda. Eu vou e volto rapidinho.
Nesse momento o Gabriel veio até a gente perguntando se precisávamos de ajuda. E o Daniel foi mais rápido que eu.
- Biel, me faz um favorzão irmão. Ajuda a Carol a pegar umas bebidas lá na cozinha, que eu vou com a Mel no mercado.
- Tudo bem cara, vai lá. – Com essa eu não contava, meu coração acelerou. O Daniel pegou minha mão e saiu me arrastando, enquanto eu tentava argumentar o quanto aquilo era desnecessário. Quando eu me dei conta, já estava dentro do elevador e a porta já estava fechando.
- Posso saber o que deu em você? – Perguntou ele bravo.
- Do que você está falando?
- Do que eu estou falando? Eu estou falando de você fugindo de mim, desde a hora em que eu cheguei. Estou falando de você, agindo como se nada tivesse acontecido ontem. De você me evitando, me ignorando. Melissa, eu fui sincero com você ontem. E eu não sei para você, mas para mim o que aconteceu ontem, aqui dentro desse elevador foi verdadeiro. Então, sinceramente, eu não estou entendendo porque você está agindo assim comigo. E se você vier me dizer que é por causa da Carol...
Nesse momento a porta do elevador abriu, reconheci o mesmo homem calvo e gordo de ontem, então dei um passo para ficar atrás do Daniel, na esperança de que ele não me reconhecesse. Ele olhou espantado para o Daniel que disse:
- Oi pai!
- Oi meu filho, você não tinha ido para um churrasco. Já voltou?
- Não, só vou ali no mercado buscar umas cervejas. – Nesse momento o homem pareceu consternado.
- Daniel, esse churrasco por acaso não é na cobertura, certo?
- É sim, a propósito. Deixa eu te apresentar. – Disse ele saindo da minha frente, dando a oportunidade de o pai notar minha presença no elevador pela primeira vez. O rosto do homem ficou branco, enquanto Daniel continuava. – Pai, essa é Melissa. Minha namorada.
Eu olhei para o Daniel incrédula, porém antes que eu pudesse dizer ou pensar alguma coisa, o pai dele começou a gritar.
- Sua o quê? Daniel, eu não quero você perto dessa garota. Você não sabe quem ela é, não sabe do que ela é capaz. Fique longe dela entendeu!
Eu olhava para ele sem entender nada, eu nem sequer conhecia aquele homem. Como ele podia falar aquelas coisas de mim. Abri a boca para me defender, mas novamente o Daniel foi mais rápido. A porta do elevador abriu e o pai dele saiu andando pela garagem, e ele pegou minha mão e saiu bradando atrás do pai.
- Pai o que há com você? Como você pode falar assim da minha namorada, sem nem a conhecer.
- Ah, meu filho eu conheço. Eu a conheço muito bem, e sei muito bem do que ela é capaz. Ela e a vadia da mãe dela.
Ao ouvir isso eu comecei a chorar, como aquele homem podia falar assim de mim? E principalmente, como ele podia falar assim da minha mãe? Uma pessoa que ele sequer conhecia.
Capítulo 6 - Primeiro encontro
- Pai, escuta bem. Eu amo essa garota, e não vou admitir que você fale assim dela nem de qualquer membro da família dela. Está entendendo pai, pare com isso já.
- Cadê a sua mãe garota, ela veio destruir o resto da família? Está usando você para seduzir meu filho, é isso? Pois saiba que eu não vou deixar. Você pode dizer para ela, que dessa vez eu vou defender minha família, e que eu não vou cair no joguinho dela novamente. Pode falar para aquela vadia que ...
- Minha mãe está morta! Eu não sei do que o senhor a está acusando, nem o que aconteceu entre vocês para deixar o senhor com tanta raiva assim. Mas por favor senhor, pare de falar dela assim, eu não estou mais aguentando ouvir isso. – Isso foi tudo que eu reuni forças para falar antes de cair em um choro compulsivo. O homem pareceu atordoado, virou as costas e saiu caminhando pelo estacionamento.
O Daniel ficou ali abraçado comigo por bastante tempo, enquanto eu chorava. A dor que eu sentia em meu peito de ouvir aquelas palavras, era tanta que parecia que meu peito ia explodir. Ele levantou meu rosto delicadamente, e me perguntou se eu conseguia andar. Respondi que sim, e ele me conduziu novamente para o elevador. Sempre me abraçando e me consolando. Já no elevador eu olhei para ele por fim.
- Eu não sei do que ele estava falando. – Eu disse soluçando.
- Eu sei que não. – Disse ele beijando meus lábios e me abraçando.
Quando o elevador parou olhei para frente e percebi que não estávamos no meu andar. Olhei no visor e estava marcando 18º andar. Não era possível, o Daniel só podia estar de brincadeira. Nosso prédio era de um apartamento por andar, então eu sabia o que ele pretendia antes mesmo de ele falar.
- Ah não, Daniel.
- Mel, meu pai saiu, nós vimos isso. Então fica tranquila.
Ele abriu a porta e me conduziu até a sala, abraçado comigo. Nesse momento estrou uma mulher na sala, ela era uma senhora de uns quarenta e poucos anos, muito bonita e muito bem arrumada. Tinha o cabelo castanho na altura dos ombros, impecável. Parecia ter saído de uma revista.
- Dani é você? Seu pai saiu para encontrar os amigos, pensei que fosse passar a noite sozinha... – Só então ela percebeu que eu estava ali, então seu semblante mudou. Pensei que ela fosse voar no meu pescoço ali mesmo. – O que “ela” está fazendo aqui? – Disse ela quase gritando. Então de repente, ela pareceu cair em si e falou em um tom mais ameno. – Daniel, quem é essa garota?
- Mãe, essa é minha namorada, Melissa. Ela está um pouco atordoada, passou por uma situação nada agradável agora. Vou deixar ela aqui, e vou resolver um problema rápido. Volto em dez minutos. – Disse ele me acomodando suavemente no sofá. – Mel. – Sussurrou ele no meu ouvido. – Vou avisar ao pessoal que a festa acabou e tirar aquele monte de gente da sua casa, já volto para te buscar. Por favor fique calma, eu já volto. Não vou demorar, prometo. – Completou, me deu um beijo nos lábios e se dirigiu para a porta. A mãe o seguiu.
- Daniel, eu não quero essa garota aqui em casa. – Disse a mãe dele. Eu podia ouvir tudo que eles falavam.
- Não mãe, você não. Olha, eu não sei o que deu em você e no papai hoje. Mas por favor, seja educada com a Mel. Ela é nossa vizinha, mora na cobertura. É uma garota incrível e eu realmente gosto dela. Eu preciso deixar ela aqui, por que o papai falou um monte de coisas desagradáveis, que a deixaram nesse estado que eu a trouxe para casa. Nesse momento tem um monte de convidados amigos nossos na casa dela, então eu preciso ir lá para mandar todos embora. Para que ela possa ir para casa descansar. Não sei que fantasmas estão assombrando você e o papai, mas por favor, não destrate a Melissa.
- Dani, essa menina é mesmo sua namorada? – A voz da mãe dele demonstrava desespero com essa possibilidade.
- Sim mamãe, e eu a amo demais. Então cuide dela até eu voltar.
Ouvi quando a porta da frente bateu, então a mãe dele voltou para a sala. Primeiro ela me olhou com uma certa repulsa e se retirou da sala. Então ela voltou, e como que por obrigação perguntou se eu queria beber alguma coisa. Com minha negativa, ela fez que iria se retirar, mas pensou novamente e se sentou no sofá a minha frente. Ela ficou ali sentada em silêncio. Senti que eu tinha a obrigação de quebrar o gelo, eu estava na casa dela.
- A senhora me desculpa, eu realmente não quero incomodar...
- Como você conheceu o meu filho? – Me interrompeu ela.
- No avião. Eu morava na cidade de Três coroas no Rio Grande do Sul, quando minha mãe faleceu eu vim morar no Rio. Conheci o Daniel na viagem para cá.
- Ela morreu é? – Ela não parecia ter escutado mais nada do que eu tinha dito. – Do que ela morreu? Alguma doença grave?
- Quem minha mãe? Não, ela sofreu um acidente de automóvel numa estrada no paraná.
- Será que ela sofreu?
- Os policiais me disseram que não, que foi um acidente fatal mesmo. Ela morreu na hora. – Ela pareceu ficar decepcionada ao saber que minha não sofrera ao morrer. Ficamos em silêncio por mais um tempo, e então ela perguntou.
- E seu relacionamento com meu filho. É sério mesmo? Vocês estão juntos a quanto tempo?
- Bom... – Quando eu comecei a falar a porta da frente abriu e nós duas levantamos com um salto. Ambas demonstramos um alívio enorme, ao vermos o rosto sorridente do Daniel. Ele caminhou até mim me abraçou e perguntou se eu estava bem. Fiz que sim com um aceno de cabeça. Então ele agradeceu a mãe e me levou para a saída. Quando a porta estava fechando a mãe dele perguntou.
- Você vem dormir em casa?
- Não me espere. – Respondeu ele. E fechou a porta.
Quando cheguei em casa, encontrei a Rosa ajeitando as almofadas do sofá. Ela sorriu quando me viu e veio me dar um abraço.
- Minha menina, como você está? O Seu Daniel nos disse que você passou mal na rua, eu disse para ele que é porque você não se alimenta direito. Mas agora ele vai cuidar de você, minha querida. Infelizmente eu tenho que dormir em casa hoje, prometi que cuidaria dos meus sobrinhos. Mas amanhã bem cedo, estou aqui e vou cuidar de você.
- Pode deixar, dona Rosa, eu vou cuidar dela essa noite. Nossa menina não vai ficar sozinha.
- O Senhor é um anjo. Melissa esse seu namorado é um menino de ouro. Eu vou ficar muito tranquila, sabendo que ele vai passar a noite aqui com você. – Dizendo isso ela me deu um beijo na testa e saiu para seu quartinho. Provavelmente para se arrumar para ir para sua casa. Às vezes eu esquecia que a tia Rosa tinha uma casa, uma família e que eu não fazia parte disso.
Bom, como agora eu estava na minha casa, eu não precisava mais de todos aqueles mimos. Me soltei dos braços dele e o olhei de frente. Respirei fundo e disse.
- Vou para o meu quarto agora, tomar um banho para melhorar um pouco. Depois conversamos sobre essa história de espalhar para todo mundo que eu sou sua namorada.
Capítulo 7 - Se entregando ao amor
Ele me olhou com ternura e apenas sorriu. Ele havia sido tão companheiro hoje, estando ao meu lado o tempo todo. Tomando as decisões necessárias. Eu não conseguia me imaginar passando por tudo aquilo sem ele do meu lado. Eu sentia em meu coração como se ele realmente fosse meu namorado. E, acima de tudo, eu queria isso mais do que tudo. Mas com certeza eu iria fazer um charme antes.
Tomei meu banho com calma, a água quente pereceu levar embora toda a aflição que eu estava guardando. Lembrei de cada palavra que o pai do Daniel falou, na forma fria como a mãe dele me tratou e principalmente que a raiva que os dois sentiam da minha mãe e a reação deles ao saberem que ela estava morta. A expressão deles beirava o alívio.
Com certeza tinha muita coisa que eu precisaria entender em tudo isso. Eu que tinha vindo para o Rio para ir atrás do passado na minha mãe, no momento em que eu menos estava pensando nisso. O passado dela veio até mim. Mas eu não queria pensar em nada disso agora. Eu queria pensar no Daniel, queria estar com ele. Eu ainda não entendia o que era, mas sabia que havia nascido dentro de mim um sentimento diferente em relação a ele.
Terminei meu banho e comecei a me arrumar. Olhei no relógio, já eram oito horas. “Como a hora passou rápido. ” Pensei. Eu queria estar linda, queria que o Daniel me achasse linda. Coloquei um short branco com uma camisa azul e uma maquiagem bem levinha. Cheguei na sala e percebi que o Daniel estava conversando com alguém no celular. Ele parecia bem irritado. Encostei na parede e fiquei olhando para ele. Como era bom olhar para ele. Ele então percebeu minha presença e levantou os olhos do celular e me olhou.
- Uau! – Disse ele enquanto guardava o celular no bolso.
- Obrigada. – Eu disse sorrindo. Então caminhei para perto dele.
Ele me abraçou pela cintura e cheirou meus cabelos. Eu não queria que aquilo parasse nunca, não queria me afastar dele. Pelo contrário. Queria que ele me beijasse. Eu não teria força para resistir àquilo. Mesmo sabendo que eu tinha que repreendê-lo por espalhar nosso namoro, antes dele acontecer. Nesse momento o celular dele tocou novamente. Ele tirou o celular do bolso, olhou a mensagem e desligou o celular. De relance eu vi o nome da Carol escrito na tela, isso me trouxe de volta para a realidade. Afastei as mãos dele da minha cintura delicadamente, e caminhei para a varanda, me sentando em uma das espreguiçadeiras do deck molhado na piscina. Fiz sinal para que ele se sentasse na espreguiçadeira ao lado e ele obedeceu.
A noite estava maravilhosa. Ele sentou na minha frente, e a beleza dele sob a lua era algo praticamente irresistível. Resolvi começar, antes que eu perdesse a coragem, e a vontade de falar.
- Daniel, primeiramente quero te agradecer por tudo que você fez por mim hoje. Eu sinceramente não sei como eu teria enfrentado tudo que aconteceu sem você do meu lado.
- Mel, eu não fiz mais do que a minha obrigação. Meu pai foi injusto e cruel. Eu teria feito isso por qualquer pessoa. O fato de eu te amar, só fez com que eu fizesse com mais vontade. A gente sente uma necessidade inexplicável de proteger quem a gente ama.
- Daniel, quem era no celular? Por favor não minta.
- Como assim?
- As mensagens Daniel, eu percebi que você estava conversando com alguém. Ou melhor discutindo.
- Não era nada demais, era a Carol. Ela só quer saber como você está. Ei você ainda não comprou um celular é?
- Não, ainda não vi necessidade. Mas na minha casa tem telefone, ela podia ter ligado para cá.
- Desculpa, eu disse que você estava no hospital. E que não sabia que horas teria alta. Que estava tomando soro, porque tinha desmaiado. Desculpe.
- Nossa, obrigada. De verdade. Você foi um gênio. Mas por que ela está te perturbando tanto que está te deixando tão irritado?
Ele olhou para baixo, respirou findo e então disse.
- Me desculpa, eu acho que acabei com a amizade de vocês. Quando eu vim aqui para pedir para o pessoal ir embora, a Carol pediu para eu levar ela para casa. Eu disse que não podia, porque eu tinha que ficar com você, só que ela não gostou nem um pouco. E agora, ela veio me cobrar satisfação. Desculpa Mel, eu não aguentei. Você quer ler? – Perguntou ele ligando o celular.
- É tão ruim assim? – Perguntei com receio. Ele fez que sim com a cabeça e me passou o celular.
“Oi, como está a princesa? ”
“Melhor graças a Deus, está indo para casa. ”
“Ótimo, larga ela lá e vem aqui para a gente conversar. ”
“Carol, não temos nada para conversar. ”
“ Claro que temos, você me largou para ir dar uma de enfermeiro dessa aí. O Mínimo que você me deve é um pedido de desculpas. ”
“ Carol, me desculpa. Eu tentei de tudo deixar as coisas claras para você sem te magoar, mas não vai ter outro jeito. Eu gosto de você apenas como amiga. Não te vejo de outra forma. Desculpe se eu passei a impressão errada quando fiquei com você, mas eu realmente não tenho outro sentimento por você a não ser de uma grande amizade. “
“ Ah Daniel, não vai me dizer que você está pegando a Melissa. Pelo amor de Deus, você não pode ver uma mulher mesmo heim. Depois você vai iludir a garota, e quem vai ter que consolar ainda vai ser eu. Bom você pode pegar a piranha que quiser, que no final você sempre volta para mim. “
“ Carol, acho que você ainda não entendeu. Eu não estou pegando a Melissa. Eu a amo. E acho que se você realmente quiser continuar sendo minha amiga, você medir suas palavras quando for falar dela. Por que se Deus quiser eu ainda vou conseguir fazer essa garota aceitar ser minha namorada, e ela vai estar presente na minha vida para sempre. “
“ Como assim Daniel, você conheceu essa garota ontem e já está falando que ama. Só pode ser uma piada né.
-Daniel, me responde.
- Não vai me responder é?
- Pois espera para você ver, ninguém me faz de boba não Daniel. Você vai me pagar, vocês dois”
Eu estava em choque. Realmente eu não sabia se a Carol era muito falsa ou muito louca. A forma como ela falou de mim, aquelas mensagens além de decepção me fizeram enxergar a realidade. Ela nunca foi minha amiga de verdade.
- Desculpe. – Disse ele novamente quando devolvi o celular.
- Deixa para lá. – Respondi. – Pelo visto não valia a pena.

Nenhum comentário:
Postar um comentário