Agora, vamos à continuação do nosso livro série. Divirtam-se!
Capítulo 2 - Fugindo do destino
Caminhei
pelo avião, entrei no banheiro, e tranquei a porta. Virei para o espelho, para
tentar entender o que aquele rapaz estava vendo, que chamasse sua atenção.
Minha aparência era deplorável. Eu nunca me achei muito bonita, mas meus olhos
verdes, e meu cabelo louro acinzentado, pareciam chamar a atenção dos rapazes.
Meu rosto também não era dos piores. O corpo era o que eu tinha de melhor, eu
era magra, mas não do tipo esquelética. Tinha peito, tinha bunda e coxas grossas.
Mas eu estava com um casaco enorme, que me deixava igual a um balão. Então
certamente não foi isso que chamou a atenção do chato. Voltei a me concentrar
na imagem do meu rosto, os olhos inchados de tanto chorar. Olheiras muito
fortes, de tantas noites mal dormidas. Meu cabelo estava todo embolado, preso
em um rabo de cavalo. Nossa, aquela não era uma visão muito agradável. Aquele
imbecil só podia estar zombando com a minha cara. Respirei fundo, lavei o rosto
e sequei com toalhas de papel. Soltei o cabelo, penteei com os dedos e prendi
novamente em um rabo de cavalo frouxo. Mirei o reflexo no espelho novamente.
Tinha melhorado, mas não muito. Amarrei a cara, destranquei a porta e voltei ao
meu assento.
- Voltou
Afrodite, eu já estava com saudade. – Falou o pentelho sorrindo, quando me
sentei.
- Melissa.
- Como? –
Perguntou ele confuso.
- Meu
nome, é Melissa.
- Prazer,
o meu é Daniel. – Eu devia imaginar que ele teria nome de anjo.
- Como se
isso me interessasse. – Respondi.
- Então
Mel, o que vai fazer no Rio de Janeiro? – “Nossa, como esse cara é insuportável.
” Pensei.
- Só por
que eu disse meu nome você se dá ao direito de me tratar por apelido? – Eu
disse fechando a cara.
- É que Melissa,
é um nome muito grande. – Respondeu ele sorrindo.
- Você não
parece ter preguiça de falar.
Ele riu
alto colocando o cinto de segurança.
- Não
ouviu Mel, coloque o cinto. Vamos aterrissar. – Olhei ao redor e todos os
outros passageiros estavam colocando o cinto de segurança, coloquei o meu cinto
tentando entender como eu não tinha ouvido o aviso de que iriamos aterrissar.
De repente meu estomago deu um nó, eu havia chegado ao Rio de janeiro. Eu ia
fazer tudo que minha mãe pediu que eu não fizesse. Ia procurar minha família,
meu pai, minha origem. Mas acima de tudo, queria descobrir que passado era esse
que ela escondia de mim, e que a envergonhava tanto. Como ela pôde pensar que
eu iria odiá-la, eu jamais a odiaria. Eu a amava demais.
- Então
Mel, o que veio fazer no Rio? – Definitivamente o Daniel sabia como ser
inconveniente.
- Isso não
é da sua conta Dani. – Respondi em tom sarcástico, mas ele não pareceu se
incomodar.
- Eu só
pensei que como eu moro aqui, eu poderia te ajudar. Você me disse que não
conhece nada aqui, então. Acho que será mais fácil para você, se tiver alguém
para te ajudar na cidade. Uma vez que você me disse que não tem lembranças da
cidade, eu supus que você não tem parente aqui, senão teria voltado para
visitar, pelo menos.
- Você
pensa demais Daniel, e é muito intrometido. Agradeço sua oferta, mas não vejo
necessidade, sei ler um mapa e tenho boca para perguntar onde ficam os lugares.
Até porque não pretendo chegar perto de você a partir no momento em que a gente
descer desse avião.
- Nossa! E
eu que pensei que a gente estava se entendendo. – Respondeu ele, segurando o
riso. Aquele cara estava me dando nos nervos. Era tão autoconfiante, que minha
rispidez o divertia, em vez que deixá-lo irritado.
- Pensou
errado. Eu estou te suportando, porque não posso sair daqui. Mas assim que a
gente descer do avião, faça de conta que nunca me viu na vida. – Eu não sabia
dizer por que ele me irritava tanto, afinal ele não era assim tão detestável. Mas
tinha algum alerta em mim, que dizia para me manter afastada dele.
- Se eu
fingir que nunca te vi na vida, vou me apaixonar por você novamente e te
seguirei aonde você for. – Respondeu ele num tom divertido.
- Humpf. –
Bufei e cruzei os braços olhando para a janela, onde a cidade começava a
aparecer.
- Me dá
seu telefone? – Perguntou ele inocentemente. Eu olhei para ele incrédula.
- Mesmo se
eu quisesse, não posso te dar meu telefone, por que eu não tenho telefone.
- Me dá
seu celular, pode ser com o DDD no seu estado, eu não ligo de fazer
interurbano.
- Desculpe
te decepcionar Daniel, mas eu não tenho telefone mesmo. Estou de mudança para o
Rio e por isso não tenho telefone ainda. – Respondi com sinceridade.
- Bom isso
é uma coisa que a gente vai ter que resolver com muita urgência, por que eu não
vou conseguir ficar muito tempo sem te ver.
- Você é
louco. – Eu realmente estava começando a pensar que aquele garoto não era muito
certo da cabeça.
- Se eu te
der meu telefone você vai me ligar?
- Duvido
muito. – Respondi, tirando o cinto de segurança e me preparando para descer do
avião.
- Vai
pensar em mim? – Preguntou ele enquanto passávamos pelo saguão do aeroporto.
Saímos do
aeroporto, e nos dirigimos para o ponto de táxi. Abri a porta do carro e me
virei para respondê-lo.
- Receio
que não. – Respondi, entrando no carro e batendo a porta. Ele sorriu e abaixou
na janela.
- O que
você está fazendo? – Perguntei quando ele colocou a cabeça para dentro do
carro.
- Só vendo
o rosto do motorista. – Respondeu ele. – Assim se você não me ligar, eu venho
aqui e pergunto para ele onde ele te levou. Garota, agora que eu te encontrei
eu não vou te perder. – Concluiu ele, como se estivesse me dizendo a coisa mais
óbvia do mundo.
- Isso a
gente vai ver. Tchau Daniel, valeu ter te conhecido. Embora não possa dizer que
foi um prazer. – Eu disse fechando o vidro, enquanto o motorista arrancava com
o carro. Ele se afastou uns passos para trás, e ficou me olhando com aquele
sorriso maravilhoso nos lábios. Virei para o motorista e pedi para ele seguir
em direção à Barra da tijuca, e pedi para que ele me avisasse assim que a gente
chegasse na Barra.
- Moça, você
não prefere me dar o endereço que eu te deixo lá? – Perguntou o motorista.
- Não
moço, eu só quero que o senhor me leve até a Barra da tijuca, depois eu me viro
por lá. Respondi impaciente.
- Ah,
entendi moça, vai trocar de táxi, para eu não poder dizer ao rapaz aonde te
levei né?
Assenti
com a cabeça e olhei pela janela. A paisagem era exuberante, eu nunca tinha
visto nada como aquilo. A paisagem urbana misturava com o mar, com lagoas, com
áreas verdes. Tudo isso na mais perfeita harmonia, como um quadro pintado por
deuses. Abri a janela, sentindo o vento bater em meu rosto, o sol forte em
minha pele.
- Moça,
chegamos na Barra. A senhora quer que eu encoste? – Olhei para o motorista meio
atordoada, eu não tinha percebido o tempo passar.
- Sim pode
encostar onde o senhor achar melhor, onde for mais fácil para pegar outro táxi.
– O motorista assentiu sorrindo, e encostou o carro. Paguei a corrida e desci
do carro. Quando ia fechando a porta, vi um pedaço de papel no chão do carro.
Abaixei, peguei o papel e olhei o que estava escrito.
7898-4588
Daniel
Borges
Eu sorri,
guardando o papel na bolsa. Fechei a porta e fui até o porta-malas, onde o
motorista já estava tirando minhas malas. Quando o motorista partiu eu fiz
sinal para outro táxi.
Entrei no
apartamento enorme, sem imaginar o que me esperava. Eu não tinha ideia de como
seria uma cobertura. Uma vez que meu círculo
de amizade em Três Coroas, era formado por pessoas de classe média, assim como
eu. E eu nunca fui muito ligada nessas revistas, que mostrava como eram as
casas e a vida das pessoas ricas e famosas. Eu não tinha noção do que iria
encontrar ali.
Quando eu
abri a porta fiquei chocada com o tamanho da sala, era enorme. Tinha uma porta
no final, que dava para uma área externa com piscina, churrasqueira e banheiros
que mais pareciam vestiários. O espaço externo era todo arborizado, tinha
mesas, cadeiras, guarda-sóis e espreguiçadeiras. Na piscina, tinha uma espécie
de cachoeira em uma das bordas. Toda a
área era cercada por uma mureta de vidro, que dava de frente para a praia,
permitindo que se visse o mar mesmo de dentro da piscina. Abaixei minhas malas
no chão, abri aquela que eu sabia que tinha uma toalha. Peguei a toalha com
cuidado e coloquei em uma das espreguiçadeiras. Tirei meu casaco – só então percebi
que eu estava torrando, com aquele casaco debaixo do sol forte. Devia estar
fazendo uns 30 graus ou mais. – tirei a blusa e a calça, e mergulhei na piscina
apenas de calcinha e sutiã. Fiquei ali, nadando por um tempo, depois me deitei
em uma das espreguiçadeiras de madeira escura que ficavam ao lado da
“cachoeira”, dentro da piscina numa espécie de deque molhado. Essas
espreguiçadeiras ficavam de frente para a praia, então eu fiquei ali, olhando o
mar e perdida em meus pensamentos. Pensei em como era estranho estar ali, na
minha casa, onde eu poderia fazer o que eu quisesse sem ter que dar satisfação
para ninguém. Eu que sempre estudei tanto e trabalhei tanto para ter minhas
coisas, e ajudar minha mãe a manter nossa humilde casa. Estava agora na minha
cobertura, na Barra da tijuca – eu já havia pesquisado quando soube o que
herdará, e sabia que era um bairro nobre – dentro na minha piscina e com uma
conta bancária tão recheada que eu, meus filhos e meus netos poderíamos levar
uma vida muito confortável sem que nenhum de nós jamais tivesse que trabalhar.
E minha mãe escondeu isso de mim minha vida toda, esperou que ela morresse para
me revelar que na verdade tanto sacrifício, tanto trabalho, foi tudo atoa, uma vez
que ela tinha tantos imóveis e tanto dinheiro. Se nós éramos tão felizes só nós
duas, mesmo com a nossa vidinha medíocre. Como seria nossa vida cercada de
luxo, sem minha mãe não tendo que trabalhar tanto? Nós poderíamos ter tido
tanto tempo a mais juntas, tempo este que me foi roubado pelas mentiras dela. E
ainda tinha minha família, família essa que eu nunca soube que tinha, família
que me foi negada. Eu sempre me senti meio que ninguém, por não ter família. Era
a filhinha da mamãe, pois eu só tinha mãe. Não me arrependia da vida que eu
tinha, eu amava cada momento da minha vida, porque eu tinha minha mãe para
compartilha-la. Mas isso não me impedia de imaginar, como seria a vida sem as
mentiras.
Isso me
fez ver o quanto eu sentia, por não ter almoços em família aos domingos. O
quanto eu sentia, por não ter uma avó para me deseducar, ou uma tia mais
moderninha, para contar as coisas que eu não queria que minha mãe soubesse. E
acima de tudo, o quanto eu sentia falta de um pai. Um pai para me contar histórias,
para me cobrir e me dar um beijo de boa noite. Um pai para me levar nas festas,
um pai para colocar medo nos meus namorados. Ou somente, um pai para ser meu
pai.

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