terça-feira, 4 de agosto de 2015

Livro Série

É terça!!!!!!!!!!!
Agora, vamos à continuação do nosso livro série. Divirtam-se!



Capítulo 2 - Fugindo do destino


Caminhei pelo avião, entrei no banheiro, e tranquei a porta. Virei para o espelho, para tentar entender o que aquele rapaz estava vendo, que chamasse sua atenção. Minha aparência era deplorável. Eu nunca me achei muito bonita, mas meus olhos verdes, e meu cabelo louro acinzentado, pareciam chamar a atenção dos rapazes. Meu rosto também não era dos piores. O corpo era o que eu tinha de melhor, eu era magra, mas não do tipo esquelética. Tinha peito, tinha bunda e coxas grossas. Mas eu estava com um casaco enorme, que me deixava igual a um balão. Então certamente não foi isso que chamou a atenção do chato. Voltei a me concentrar na imagem do meu rosto, os olhos inchados de tanto chorar. Olheiras muito fortes, de tantas noites mal dormidas. Meu cabelo estava todo embolado, preso em um rabo de cavalo. Nossa, aquela não era uma visão muito agradável. Aquele imbecil só podia estar zombando com a minha cara. Respirei fundo, lavei o rosto e sequei com toalhas de papel. Soltei o cabelo, penteei com os dedos e prendi novamente em um rabo de cavalo frouxo. Mirei o reflexo no espelho novamente. Tinha melhorado, mas não muito. Amarrei a cara, destranquei a porta e voltei ao meu assento.
- Voltou Afrodite, eu já estava com saudade. – Falou o pentelho sorrindo, quando me sentei.
- Melissa.
- Como? – Perguntou ele confuso.
- Meu nome, é Melissa.
- Prazer, o meu é Daniel. – Eu devia imaginar que ele teria nome de anjo.
- Como se isso me interessasse. – Respondi.
- Então Mel, o que vai fazer no Rio de Janeiro? – “Nossa, como esse cara é insuportável. ” Pensei.
- Só por que eu disse meu nome você se dá ao direito de me tratar por apelido? – Eu disse fechando a cara.
- É que Melissa, é um nome muito grande. – Respondeu ele sorrindo.
- Você não parece ter preguiça de falar.
Ele riu alto colocando o cinto de segurança.
- Não ouviu Mel, coloque o cinto. Vamos aterrissar. – Olhei ao redor e todos os outros passageiros estavam colocando o cinto de segurança, coloquei o meu cinto tentando entender como eu não tinha ouvido o aviso de que iriamos aterrissar. De repente meu estomago deu um nó, eu havia chegado ao Rio de janeiro. Eu ia fazer tudo que minha mãe pediu que eu não fizesse. Ia procurar minha família, meu pai, minha origem. Mas acima de tudo, queria descobrir que passado era esse que ela escondia de mim, e que a envergonhava tanto. Como ela pôde pensar que eu iria odiá-la, eu jamais a odiaria. Eu a amava demais.
- Então Mel, o que veio fazer no Rio? – Definitivamente o Daniel sabia como ser inconveniente.
- Isso não é da sua conta Dani. – Respondi em tom sarcástico, mas ele não pareceu se incomodar.
- Eu só pensei que como eu moro aqui, eu poderia te ajudar. Você me disse que não conhece nada aqui, então. Acho que será mais fácil para você, se tiver alguém para te ajudar na cidade. Uma vez que você me disse que não tem lembranças da cidade, eu supus que você não tem parente aqui, senão teria voltado para visitar, pelo menos.
- Você pensa demais Daniel, e é muito intrometido. Agradeço sua oferta, mas não vejo necessidade, sei ler um mapa e tenho boca para perguntar onde ficam os lugares. Até porque não pretendo chegar perto de você a partir no momento em que a gente descer desse avião.
- Nossa! E eu que pensei que a gente estava se entendendo. – Respondeu ele, segurando o riso. Aquele cara estava me dando nos nervos. Era tão autoconfiante, que minha rispidez o divertia, em vez que deixá-lo irritado.
- Pensou errado. Eu estou te suportando, porque não posso sair daqui. Mas assim que a gente descer do avião, faça de conta que nunca me viu na vida. – Eu não sabia dizer por que ele me irritava tanto, afinal ele não era assim tão detestável. Mas tinha algum alerta em mim, que dizia para me manter afastada dele.
- Se eu fingir que nunca te vi na vida, vou me apaixonar por você novamente e te seguirei aonde você for. – Respondeu ele num tom divertido.
- Humpf. – Bufei e cruzei os braços olhando para a janela, onde a cidade começava a aparecer.
- Me dá seu telefone? – Perguntou ele inocentemente. Eu olhei para ele incrédula.
- Mesmo se eu quisesse, não posso te dar meu telefone, por que eu não tenho telefone.
- Me dá seu celular, pode ser com o DDD no seu estado, eu não ligo de fazer interurbano.
- Desculpe te decepcionar Daniel, mas eu não tenho telefone mesmo. Estou de mudança para o Rio e por isso não tenho telefone ainda. – Respondi com sinceridade.
- Bom isso é uma coisa que a gente vai ter que resolver com muita urgência, por que eu não vou conseguir ficar muito tempo sem te ver.
- Você é louco. – Eu realmente estava começando a pensar que aquele garoto não era muito certo da cabeça.
- Se eu te der meu telefone você vai me ligar?
- Duvido muito. – Respondi, tirando o cinto de segurança e me preparando para descer do avião.
- Vai pensar em mim? – Preguntou ele enquanto passávamos pelo saguão do aeroporto.
Saímos do aeroporto, e nos dirigimos para o ponto de táxi. Abri a porta do carro e me virei para respondê-lo.
- Receio que não. – Respondi, entrando no carro e batendo a porta. Ele sorriu e abaixou na janela.
- O que você está fazendo? – Perguntei quando ele colocou a cabeça para dentro do carro.
- Só vendo o rosto do motorista. – Respondeu ele. – Assim se você não me ligar, eu venho aqui e pergunto para ele onde ele te levou. Garota, agora que eu te encontrei eu não vou te perder. – Concluiu ele, como se estivesse me dizendo a coisa mais óbvia do mundo.
- Isso a gente vai ver. Tchau Daniel, valeu ter te conhecido. Embora não possa dizer que foi um prazer. – Eu disse fechando o vidro, enquanto o motorista arrancava com o carro. Ele se afastou uns passos para trás, e ficou me olhando com aquele sorriso maravilhoso nos lábios. Virei para o motorista e pedi para ele seguir em direção à Barra da tijuca, e pedi para que ele me avisasse assim que a gente chegasse na Barra.
- Moça, você não prefere me dar o endereço que eu te deixo lá? – Perguntou o motorista.
- Não moço, eu só quero que o senhor me leve até a Barra da tijuca, depois eu me viro por lá. Respondi impaciente.
- Ah, entendi moça, vai trocar de táxi, para eu não poder dizer ao rapaz aonde te levei né?
Assenti com a cabeça e olhei pela janela. A paisagem era exuberante, eu nunca tinha visto nada como aquilo. A paisagem urbana misturava com o mar, com lagoas, com áreas verdes. Tudo isso na mais perfeita harmonia, como um quadro pintado por deuses. Abri a janela, sentindo o vento bater em meu rosto, o sol forte em minha pele.
- Moça, chegamos na Barra. A senhora quer que eu encoste? – Olhei para o motorista meio atordoada, eu não tinha percebido o tempo passar.
- Sim pode encostar onde o senhor achar melhor, onde for mais fácil para pegar outro táxi. – O motorista assentiu sorrindo, e encostou o carro. Paguei a corrida e desci do carro. Quando ia fechando a porta, vi um pedaço de papel no chão do carro. Abaixei, peguei o papel e olhei o que estava escrito.

                                 7898-4588
                   Daniel Borges

Eu sorri, guardando o papel na bolsa. Fechei a porta e fui até o porta-malas, onde o motorista já estava tirando minhas malas. Quando o motorista partiu eu fiz sinal para outro táxi.
Entrei no apartamento enorme, sem imaginar o que me esperava. Eu não tinha ideia de como seria uma cobertura.  Uma vez que meu círculo de amizade em Três Coroas, era formado por pessoas de classe média, assim como eu. E eu nunca fui muito ligada nessas revistas, que mostrava como eram as casas e a vida das pessoas ricas e famosas. Eu não tinha noção do que iria encontrar ali.
Quando eu abri a porta fiquei chocada com o tamanho da sala, era enorme. Tinha uma porta no final, que dava para uma área externa com piscina, churrasqueira e banheiros que mais pareciam vestiários. O espaço externo era todo arborizado, tinha mesas, cadeiras, guarda-sóis e espreguiçadeiras. Na piscina, tinha uma espécie de cachoeira em uma das bordas.  Toda a área era cercada por uma mureta de vidro, que dava de frente para a praia, permitindo que se visse o mar mesmo de dentro da piscina. Abaixei minhas malas no chão, abri aquela que eu sabia que tinha uma toalha. Peguei a toalha com cuidado e coloquei em uma das espreguiçadeiras. Tirei meu casaco – só então percebi que eu estava torrando, com aquele casaco debaixo do sol forte. Devia estar fazendo uns 30 graus ou mais. – tirei a blusa e a calça, e mergulhei na piscina apenas de calcinha e sutiã. Fiquei ali, nadando por um tempo, depois me deitei em uma das espreguiçadeiras de madeira escura que ficavam ao lado da “cachoeira”, dentro da piscina numa espécie de deque molhado. Essas espreguiçadeiras ficavam de frente para a praia, então eu fiquei ali, olhando o mar e perdida em meus pensamentos. Pensei em como era estranho estar ali, na minha casa, onde eu poderia fazer o que eu quisesse sem ter que dar satisfação para ninguém. Eu que sempre estudei tanto e trabalhei tanto para ter minhas coisas, e ajudar minha mãe a manter nossa humilde casa. Estava agora na minha cobertura, na Barra da tijuca – eu já havia pesquisado quando soube o que herdará, e sabia que era um bairro nobre – dentro na minha piscina e com uma conta bancária tão recheada que eu, meus filhos e meus netos poderíamos levar uma vida muito confortável sem que nenhum de nós jamais tivesse que trabalhar. E minha mãe escondeu isso de mim minha vida toda, esperou que ela morresse para me revelar que na verdade tanto sacrifício, tanto trabalho, foi tudo atoa, uma vez que ela tinha tantos imóveis e tanto dinheiro. Se nós éramos tão felizes só nós duas, mesmo com a nossa vidinha medíocre. Como seria nossa vida cercada de luxo, sem minha mãe não tendo que trabalhar tanto? Nós poderíamos ter tido tanto tempo a mais juntas, tempo este que me foi roubado pelas mentiras dela. E ainda tinha minha família, família essa que eu nunca soube que tinha, família que me foi negada. Eu sempre me senti meio que ninguém, por não ter família. Era a filhinha da mamãe, pois eu só tinha mãe. Não me arrependia da vida que eu tinha, eu amava cada momento da minha vida, porque eu tinha minha mãe para compartilha-la. Mas isso não me impedia de imaginar, como seria a vida sem as mentiras.
Isso me fez ver o quanto eu sentia, por não ter almoços em família aos domingos. O quanto eu sentia, por não ter uma avó para me deseducar, ou uma tia mais moderninha, para contar as coisas que eu não queria que minha mãe soubesse. E acima de tudo, o quanto eu sentia falta de um pai. Um pai para me contar histórias, para me cobrir e me dar um beijo de boa noite. Um pai para me levar nas festas, um pai para colocar medo nos meus namorados. Ou somente, um pai para ser meu pai.



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